Henrique Raposo é um provocador nato que gosta de desmontar
os lugares-comuns que considera circularem entre a elite (sobretudo a de
esquerda) da III República. Na sua História
Politicamente Incorrecta do Portugal Contemporâneo (Guerra e Paz, 2013),
Raposo pretende ser “um mero recolector de factos incómodos” (p. 13), mas a
obra é bem mais um ensaio político (de qualidade e pertinência inegáveis) que
um livro de história. Na verdade, os factos apresentados pelo autor sobre temas
como as relações entre Estado Novo e Igreja Católica, a participação portuguesa
nas primeiras décadas da construção europeia, o desenvolvimento económico dos “trinta
gloriosos” ou as posições colonialistas do republicanismo estão longe de ser
novidade. De resto, Raposo destaca na bibliografia a influência de autores como
Rui Ramos, através da História de Portugal
por este coordenada e dos ensaios do historiador reunidos em Outra Opinião (O Independente, 2004).
São numerosas as referências bibliográficas a artigos de investigação publicados
na Análise Social, o que indicia a qualidade
científica e diversidade temática da revista e dos livros editados pelo ICS.
Por outro lado, historiadores como Fernando Rosas e Raquel Varela estão,
obviamente, ausentes da bibliografia consultada por Raposo.
No capítulo “Álvaro Cunhal venceu”, Henrique Raposo contrapõe
ao sectarismo do secretário-geral do PCP, “um partido que nunca quis viver em
democracia” (p. 115), o “breve interlúdio” dos anos 50 e do V Congresso,
quando, durante a prisão de Cunhal, o seu rival Júlio Fogaça, então figura
dominante da direcção comunista, admitiu uma transição pacífica da ditadura
para a democracia e abriu o PCP à colaboração em pé de igualdade com toda a
oposição ao Estado Novo; “em consequência”, Fogaça “apoiou Humberto Delgado em
1958” (p. 115). Depois de fugir da cadeia de Peniche, Álvaro Cunhal teria feito
o partido voltar à ortodoxia marxista-leninista e sabotado qualquer esforço
unitário da oposição. O terceiro volume da biografia de Cunhal escrita por José
Pacheco Pereira, O Prisioneiro (2ª
edição, Temas e Debates, 2006) conta uma história algo diferente. Para lá do
papel decisivo de Fogaça nos anos de isolamento e hostilidade comunista para
com os restantes sectores oposicionistas, durante a primeira metade dos anos
50, a atitude da direcção do PCP perante as eleições presidenciais de 1958 foi
errática. Depois de apostar numa candidatura de Cunha Leal que não se concretizou,
o PCP lançou Arlindo Vicente contra o “fascista” Humberto Delgado. Só
pressionados pelos militantes, muitos dos quais apoiaram Delgado, e depois de
verem a dimensão da agitação anti-salazarista provocada pela candidatura do
general é que os dirigentes comunistas se viram obrigados a ordenar a
desistência de Vicente e aceitar a fusão das candidaturas.
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