Encontrar algo útil no meio da tralha é parte essencial do trabalho de um historiador.
Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens

sábado, 31 de agosto de 2013

Um golo contra a ansiedade

A vida de António Fernandes Roquete (Salvaterra de Magos, 08.08.1906 – Lisboa, 18.12.1995) foi marcada pela ocupação de posições de destaque em vários meios e períodos, tal como por contradições que reforçam a singularidade do percurso do indivíduo em questão.

António Roquete tornou-se em 1917 aluno da Casa Pia de Lisboa, instituição onde frequentou os cursos comercial e de sargentos milicianos e revelou grandes capacidades para o desporto, nomeadamente nas modalidades de futebol e natação. Como guarda-redes, depois de representar a Casa Pia nas competições escolares lisboetas de futebol, ingressou em 1924 na equipa principal do Casa Pia Atlético Clube. Foi na baliza que se distinguiu como um dos melhores futebolistas portugueses do seu tempo, obtendo igualmente êxitos na natação, onde o casapiano se sagrou campeão de Lisboa na distância de 200 metros bruços. Praticou igualmente pólo aquático (designado na altura em Portugal por water-polo), ao serviço do CPAC, e basebol, quando se verificaram várias experiências desta modalidade na Casa Pia.

Frequentemente convocado para selecções de Lisboa envolvidas em jogos inter-regionais ou internacionais, Roquete foi por 16 vezes (entre 1926 e 1933) o guarda-redes da selecção nacional de futebol. Nessa condição, esteve presente nos Jogos Olímpicos de Amesterdão (1928), onde o misto português alcançou os quartos-de-final do torneio de futebol, um feito vivido intensamente em Portugal por centenas de milhares de pessoas que se reuniram em Lisboa, Porto e outras cidades do país para acompanhar os três jogos disputados pela equipa lusa e, aquando do regresso da comitiva portuguesa, acolheram em festa os jogadores. Neste contexto de massificação do futebol, Roquete é um exemplo dos primeiros “heróis desportivos” portugueses, sendo os seus “feitos” observados por crescentes multidões que se deslocam aos recintos de jogo e transmitidos em texto e imagem pela imprensa à escala nacional. Apesar do CPAC, cuja área de recrutamento se limita à comunidade casapiana, se revelar progressivamente incapaz de competir com os seus rivais lisboetas, as qualidades desportivas de Roquete tornam-no uma das mais populares figuras do futebol português, oficialmente amador.

Cerca de 1929, António Roquete entrou para a Polícia Internacional (criada pelo Decreto nº 15 884, de 24 de Agosto de 1928), uma força dedicada ao controlo das fronteiras nacionais que, em 1931, ganharia funções abertamente políticas e ficaria sob o comando do capitão Agostinho Lourenço. Lourenço seria igualmente o director da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), formada em 1933 a partir da fusão da então Polícia Internacional Portuguesa com outros organismos criados pela Ditadura Militar com o fim de combater os opositores desta. Entre 1931 e 1934, Roquete passa pelos postos fronteiriços da PIP/PVDE em Marvão, Elvas e Valença. Além de chefiar estes últimos dois postos, mantém a actividade futebolística ao jogar pelos clubes Sport Lisboa e Elvas e Sport Clube Valenciano, que disputam desafios (aos quais a presença do “internacional” português ajuda a atrair público) com colectividades vizinhas dos dois lados da fronteira. O trabalho do agente de 1ª classe António Roquete na vigilância da fronteira impressiona Agostinho Lourenço, o que vale ao casapiano vários louvores (Roquete é considerado inocente das acusações, não especificadas nas ordens de serviço da PVDE, que lhe são feitas por um subordinado, depois expulso da polícia política) e a promoção, em Dezembro de 1934, a inspector de fronteira. Em 1935, Roquete lidera a nova Inspecção da PVDE, em Coimbra, antes de voltar a Lisboa (será mais tarde transferido para a Delegação do Porto, antes de se fixar na sede da corporação), onde, no início de 1936, termina no Casa Pia a carreira de futebolista, quando é considerado pela crítica o melhor guarda-redes português de sempre (estatuto que perderia nas décadas seguintes, devido ao surgimento de novos valores). A sua ascensão na polícia política prossegue, confiando-lhe Lourenço a liderança de uma brigada que, em 1939, se desloca a Moçambique, numa missão relacionada com a iminente visita à colónia do Presidente da República, Óscar Carmona O nome de António Roquete será associado pela oposição ao Estado Novo a dois acontecimentos ocorridos em 1942: a prisão e espancamento do jornalista e treinador Cândido de Oliveira (amigo e protector de Roquete) e o assassinato do médico comunista António Carlos Ferreira Soares. No entanto, permanece incerto o papel que Roquete teve (ou não) nessas duas acções repressivas da PVDE.

Uma portaria do Ministério das Colónias de 29 de Maio de 1945 nomeia Roquete para o cargo (ainda vago dois anos depois da sua criação) de chefe de secção do quadro eventual do Corpo de Polícia de Moçambique, do qual tomará posse ao chegar a Lourenço Marques em Setembro de 1947. Dentro do Corpo de Polícia, os funcionários do quadro eventual (convertido pelo Decreto nº 38 043, de 8 de Novembro de 1950, na Polícia Internacional, onde Roquete assume o cargo de adjunto, com funções idênticas às anteriores) encontravam-se encarregues da vigilância das fronteiras moçambicanas e da repressão da oposição ao salazarismo na colónia. Durante treze anos, Roquete irá dirigir o combate, com técnicas semelhantes às utilizadas na Metrópole, a grupos como advogados ligados à oposição republicana, ex-militantes do Partido Comunista Português estabelecidos em Moçambique e jovens que constituirão o embrião do nacionalismo moçambicano. As eleições presidenciais de 1949 e 1958 são duas das ocasiões onde a contestação ao regime é visível, especialmente em Lourenço Marques. No ano de 1960, quando a vinda de meios e pessoal de Lisboa permite o estabelecimento efectivo de uma delegação da PIDE em Moçambique autónoma da polícia local, Roquete aposenta-se do serviço público, alegando doença, e torna-se chefe de segurança do Banco Nacional Ultramarino em Lourenço Marques. Poucos anos depois, o casapiano ingressa nos quadros de uma empresa controlada pelo BNU, a Caju Industrial de Moçambique, dedicada à industrialização e comercialização de castanha de caju, uma actividade económica então em plena expansão no território. Entretanto, Roquete participa no associativismo dos casapianos residentes na colónia e acompanha à distância a vida do CPAC.

Extinta pelo 25 de Abril a polícia política na Metrópole, em Moçambique vivem-se semanas de incerteza até que os antigos membros da PIDE residentes no território são obrigados a apresentar-se às autoridades militares, o que motiva a fuga da maioria para a Rodésia e África do Sul. Ignora-se como Roquete saiu de Moçambique e voltou para Portugal, onde a Comissão de Extinção da PIDE/DGS emitirá um mandado de captura em nome do subinspector António Fernandes Roquete, datado de 3 de Novembro de 1975, sem que existam indícios de uma eventual prisão do visado. Em Janeiro de 1977, Roquete toma conhecimento da ordem de libertação provisória que o submete a várias condições enquanto aguarda julgamento (não sabemos ainda se e quando este se realizou). Nos anos seguintes, as poucas notícias sobre a actividade de Roquete estão geralmente ligadas ao Casa Pia, promotor de uma homenagem pública prestada ao antigo guarda-redes e a outros dois atletas dos primeiros anos do clube em 5 de Outubro de 1995. Dois meses depois, António Roquete, casado (desde 1934), com dois filhos e três netos, morre devido a uma broncopneumonia, sendo enterrado em Salvaterra de Magos.

Apesar dos elogios da crítica jornalística e do público que recebeu no período em que jogou, o facto de Roquete não ter vestido, a não ser episodicamente, a camisola de nenhum dos clubes mais populares e mediáticos do país, como Belenenses, Benfica, FC Porto ou Sporting, reduziu a presença do seu nome na memória futebolística durante as décadas posteriores, sem o apagar, como demonstra o minuto de silêncio em sua homenagem respeitado nas competições nacionais no fim-de-semana seguinte à morte do casapiano. Por outro lado, a participação nas polícias de defesa da Ditadura Militar e do Estado Novo e o contacto com presos políticos inseriram Roquete noutras memórias colectivas, como as do “antifascismo”, da repressão conduzida pelo regime de Salazar ou do início do movimento independentista em Moçambique.

sábado, 24 de agosto de 2013

Greve geral até ao Natal


Depois de concluir, com o estudo da I República, os doze primeiros volumes da sua História de Portugal, Joaquim Veríssimo Serrão foi além do plano original e passou à reconstituição dos acontecimentos do período entre 1926 e 1974, para o qual prefere a designação “II República” à de “Estado Novo”. Acerca desta fase da história portuguesa, o historiador escalabitano publicou até agora seis volumes, abordando o volume XVIII (Verbo, 2010) os anos entre 1960 e 1968, que terminam com a queda de Salazar e a subida à Presidência do Conselho de Marcelo Caetano. De acordo com o anunciado por Veríssimo Serrão, o período de governo do seu amigo Caetano (correspondência trocada entre os dois antes e depois do 25 de Abril encontra-se publicada) ocupará o volume XIX e último da História de Portugal, possivelmente já concluído pelo autor mas ainda inédito.

Se, de acordo com as introduções dos diversos volumes da monumental obra, a origem do impulso que levou Joaquim Veríssimo Serrão a lançar, em 1977 (quando se encontrava fora da docência por ter sido saneado pelo novo regime), o projecto da sua História de Portugal se encontra nas críticas injustas a grandes figuras do passado nacional e ao esforço colonizador dos Portugueses feitas, na sua opinião, durante os anos revolucionários, os trabalhos do investigador sobre o período posterior ao 28 de Maio orientam-se pela preocupação de reabilitar os protagonistas da ditadura. É pena que, na defesa intransigente desta, Veríssimo Serrão proceda a uma leitura acrítica de um âmbito reduzido de fontes (para narrar os eventos políticos de 1960-1968, o autor recorreu sobretudo ao Diário do Governo, aos discursos de Salazar, às memórias de Américo Tomás e aos livros de Franco Nogueira) e, nas obras citadas em rodapé, omita propositadamente quase toda a historiografia sobre o Estado Novo produzida nas últimas décadas (no volume XVIII, uma excepção é a compilação feita por Filipe Ribeiro de Meneses da correspondência produzida pelos diplomatas irlandeses acreditados em Lisboa entre 1941 e 1970, cuja publicação é saudada por Veríssimo Serrão). No entanto, existem vários aspectos úteis no volume XVIII da História de Portugal, como o tom autobiográfico (Veríssimo Serrão recorre frequentemente a contactos e experiências pessoais para ilustrar os factos narrados), o registo de grande parte das nomeações oficiais, que contribui para um melhor conhecimento do pessoal político, militar, colonial e diplomático do regime de Salazar, ou a descrição do “itinerário” de Américo Tomás, interessante para a história das localidades visitadas pelo então Presidente da República.

No que respeita ao futebol, cuja visibilidade pública se tornou (ainda) maior nos anos 60 devido aos êxitos da selecção, do Benfica e do Sporting em competições internacionais, Veríssimo Serrão (que, relativamente aos acontecimentos desportivos, complementa a sua memória com a consulta da revista O Século Ilustrado) parece dar argumentos aos que defendem a existência de uma relação próxima entre a ditadura e o desporto-rei. De acordo com Serrão, a satisfação das multidões que assistiam aos jogos dos seus clubes preferidos tinha “os seus efeitos políticos” (p. 22) e os responsáveis da II República beneficiavam das relações cordiais que estabeleciam com o meio futebolístico, expressas em deslocações aos recintos desportivos aquando de ocasiões especiais, como a inauguração, em 6 de Outubro de 1960, do terceiro anel do Estádio da Luz, onde Américo Tomás recebeu uma ovação, apesar das manifestações que no dia anterior tinham sido promovidas por opositores da ditadura (p. 23). Além disso, o desporto servia como “factor de aglutinação dos Portugueses” da Europa e de África, já que muitos futebolistas naturais de Guiné, Angola e Moçambique actuavam então em clubes da metrópole, cujos adeptos os idolatravam, sem “nenhum preconceito racial” (p. 22). Moçambicanos como Eusébio e Coluna “foram saudados na metrópole como irmãos portugueses” (p. 425) e integraram a selecção nacional que brilhou no Campeonato do Mundo de 1966, obtendo um terceiro lugar que, para Veríssimo Serrão, “constituiu um refrigério para a vida diplomática” de Portugal (p. 223), então atacado nas Nações Unidas devido à prática de colonialismo (desmentida pelo autor de História de Portugal, que reproduz as teses defendidas por Salazar e Franco Nogueira) em África.


Joaquim Veríssimo Serrão designa a conclusão da História de Portugal como “um dos derradeiros vínculos que me prendem ao mundo da vida” (p. 13), incentivando a curiosidade dos leitores sobre como o velho historiador contará o marcelismo. Além dos êxitos governativos que provavelmente atribuirá a Caetano, interessa saber que causas Veríssimo Serrão encontrará para o 25 de Abril, o qual pôs fim à existência de Portugal como “nação euro-ultramarina” e, na óptica do investigador, inviabilizou o projecto a longo prazo para a África portuguesa formulado pela II República.

sábado, 29 de junho de 2013

O hoje é o ontem de amanhã

No XI Congresso da Juventude Social Democrata, em 1994, iniciou-se um novo mandato da Comissão Política Nacional da organização, presidida desde 1990 por Pedro Passos Coelho. Então com 30 anos, Passos Coelho apresentou-se ao sufrágio dos militantes com uma lista que incluía ainda Nuno Freitas, Pedro Gomes, José Paulo, João Luís Gonçalves, Jorge Moreira da Silva (futuro sucessor de Passos na liderança da “jota”), Rui Martins, Feliciano Barreiras Duarte, Tó Silva, Francisco Braga, Carlos Reis, Gonçalo Capitão e Cristina Melo. A moção de Passos Coelho ao congresso, Acertar o Passo, foi editada num pequeno livro onde os membros da lista são identificados com uma fotografia e uma breve citação sua (a frase do líder é “Adiar é perder”).

Na introdução de Acertar o Passo, Passos Coelho reclama maior autonomia para a JSD, “lutando contra o contágio da acomodação e a facilidade do jogo interno do PSD” (p. 3), e alerta para o desencanto crescente com o cavaquismo que se seguira à esperança na base das maiorias absolutas de Cavaco Silva. A moção apresenta propostas dos jovens sociais-democratas sobre temas como educação, combate à droga, União Europeia, mudanças no sistema político (como o desaparecimento da idade mínima legal de 35 anos para os candidatos à Presidência da República) ou medidas governativas viradas para a juventude.

A nível ideológico, Passos Coelho considera que seria “criminoso negar os problemas actuais do Estado-Providência”, mas “igualmente infame” aproveitar um contexto de crise económica (20 milhões de desempregados nos 12 países comunitários) “que penaliza com especial severidade as classes média e baixa” para “contrapor modelos neo e mesmo ultra-liberais de putativa vanguarda da teoria económica” (p. 4). Por outro lado, impõe-se em 1994 “uma nova lógica de protecção social”, uma vez que “o Estado Social avançado tende a dissociar o esforço da recompensa, criando desincentivos ao trabalho, à poupança e ao espírito de iniciativa” Não é aceitável, para o presidente da JSD, que “grande parte dos recursos sejam dispendidos a indemnizar quem não tem trabalho em vez de o ser com a criação de condições para lhe permitir o regresso ao trabalho” (p. 6).


Pedro Passos Coelho deixaria a liderança da JSD no ano seguinte, candidatando-se à presidência da Câmara da Amadora nas autárquicas de 1997, quando foi eleito vereador.

sábado, 15 de junho de 2013

Um extremo cansaço de se ser infeliz

O interesse historiográfico do estudo da vida de António Fernandes Roquete (1906-1995) reside em boa parte na diversidade de meios onde o biografado se moveu e na abundância de temas e períodos que o caso pessoal de Roquete pode contribuir para compreender melhor. No entanto, seria errado analisar Roquete como um mero exemplo de determinados grupos e épocas, sem ter em conta as suas características individuais e a singularidade do seu percurso. Para lá do facto de ter sido simultaneamente um desportista célebre e um elemento importante na hierarquia das polícias políticas da Ditadura Militar e do Estado Novo, a sua vida foi marcada por numerosas contradições.

Assim, embora o apelido “Roquete” estivesse associado, no início do século XX, a uma família da elite local (em Salvaterra de Magos) e nacional (dela provinham vários dos fundadores do Sporting), António foi pobre e inscrito como aluno da Casa Pia de Lisboa. Apesar desse baixo estatuto económico-social, tornou-se, através do desporto, uma personalidade conhecida a nível nacional e mesmo internacional. Guarda-redes do Casa Pia Atlético Clube em anos nos quais os “gansos”, depois do sucesso inicial, perderam terreno para os seus rivais lisboetas, Roquete projectou-se como um dos ídolos do futebol português e foi por várias vezes o único jogador do CPAC convocado para a selecção nacional. Após aceitar uma proposta para jogar num clube do Funchal, deixou a Madeira sem ter participado num único encontro. Futebolista num tempo onde vigorariam, supostamente, em Portugal o amadorismo puro e o “amor à camisola”, recebeu dinheiro para jogar e foi abordado por clubes estrangeiros. Possuindo a vivência de partidas em grandes recintos a abarrotar de público e competições como o torneio olímpico de futebol, Roquete mostrou o seu talento nos campos com escassas condições de pequenos clubes de Elvas e Valença. A formação obtida na Casa Pia, em especial o conhecimento de línguas estrangeiras, e a experiência de viagens ao Brasil e a vários países europeus diferenciavam-no, no início da década de 30, da maioria dos subordinados do capitão Agostinho Lourenço na polícia política. A abundância de fotografias  de Roquete publicadas na imprensa durante os anos 20 e 30 contrasta com a dificuldade que os investigadores actuais sentem em encontrar imagens dos responsáveis das polícias políticas anteriores à PVDE. Admirado por casapianos e outros adeptos do futebol, Roquete converteu-se em alvo do ódio dos opositores à ditadura e ao colonialismo. Amigo e protegido de Cândido de Oliveira, foi acusado de colaboração na prisão e espancamento do treinador, antes de participar, anos mais tarde, em homenagens públicas a Cândido. Ao fim de décadas como servidor do Estado na repressão dos crimes políticos, deixou a polícia e iniciou uma carreira no sector privado (embora as fronteiras entre o Estado e os agentes económicos, no Moçambique colonial, estivessem longe de ser rígidas). Aparentemente, António Roquete escapou à passagem pela prisão que o 25 de Abril implicou para muitos dos antigos membros da PIDE/DGS. Para estes, findos os problemas com o sistema de justiça política, seguiu-se frequentemente um percurso na obscuridade e marcado pelo desprezo colectivo, enquanto Roquete continuou a ser um herói do Casa Pia e, pouco antes de morrer, foi homenageado como “glória” do desporto português, sendo a sua morte assinalada pelo meio futebolístico.


Teria a história portuguesa evoluído da mesma forma se António Roquete não tivesse existido? Provavelmente sim, mas, se não fosse a exibição espantosa do guarda-redes casapiano, Portugal teria sido derrotado pela Argentina no jogo disputado em 1 de Abril de 1928 no Lumiar.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Com Pregomia este gajo não fugia

No ano passado, o PCP realizou em Santa Maria da Feira a tradicional homenagem anual a António Ferreira Soares, médico e militante comunista que em 4 de Julho de 1942, quando se encontrava na localidade de Nogueira da Regedoura (onde era protegido pela população, à qual prestava auxílio médico gratuito), foi alvo de uma cilada e assassinado pela PVDE. O nome de Ferreira Soares passou a integrar a lista dos “mártires” do PCP, vítimas da repressão salazarista e referidos nos documentos publicados pelo partido. A propósito dos 70 anos da morte de Ferreira Soares, a romagem ao cemitério da Feira contou com a presença do secretário-geral comunista, Jerónimo de Sousa (em 1992, Álvaro Cunhal participou na cerimónia, recordando que se encontrava no Norte quando soube do assassinato), e um discurso proferido por este.

O discurso de Jerónimo é interessante quer pelo ataque do líder comunista à campanha “levada a cabo pelo exército de historiadores de serviço e difundida pelos difusores de serviço” que estará a desvalorizar a violência promovida pelo Estado Novo e o papel do PCP na resistência à ditadura, quer pelo resumo das actividades oposicionistas desenvolvidas durante a II Guerra Mundial. É feita uma enumeração das povoações e sectores laborais onde ocorreram greves e outras acções de protesto, assim como são referidos os movimentos unitários (MUNAF, MUD, MUDJ) onde diversas correntes da oposição colaboraram no ataque a Salazar. Naturalmente, Jerónimo de Sousa atribui ao seu partido, então em fase de reorganização e crescimento sob a direcção de Álvaro Cunhal, a liderança das movimentações populares e da “unidade anti-fascista”.


O político descreve da seguinte forma o assassinato de António Ferreira Soares: “uma falsa doente, acompanhada por um inspector e dois agentes da PVDE, solicita-lhe uma consulta de urgência, pedido a que ele (...) acede, recebendo a falsa doente em casa de sua irmã. Depois foram as 14 balas de pistola metralhadora disparadas à queima-roupa. (...)” De acordo com a narrativa dos acontecimentos de 4 de Julho de 1942 que tem sido divulgada pelo PCP, o inspector da PVDE referido por Jerónimo seria António Roquete, que comandava então os agentes Leonel Laranjeira e José Rodrigues Coimbra. No entanto, os nomes dos intervenientes e os pormenores da morte de Ferreira Soares divergem várias vezes nas fontes (do PCP ou de outras origens), numa situação que dificulta o esclarecimento do que se passou em Nogueira da Regedoura naquele dia. Certa é apenas a informação de que foi Leonel Laranjeira o único elemento da PVDE a ser julgado, em 1943, pelo crime, e a obter do Tribunal Militar Territorial do Porto a absolvição, a partir da conclusão de que Laranjeira disparara sobre o médico comunista em legítima defesa.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Comedores de lagosta com os impostos do povo


Director da PIP (Polícia Internacional Portuguesa) desde 1931 e da PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) a partir de 1933, o capitão Agostinho Lourenço, homem de confiança de Salazar, preocupou-se em reforçar a disciplina dos funcionários da polícia política, com o objectivo de evitar comportamentos que prejudicassem a imagem desta, especialmente junto de outras entidades estatais (segundo Lourenço, quando assumiu a liderança da PIP, antes da depuração que levou a cabo, eram frequentes os conflitos e queixas das autoridades locais em relação à má qualidade profissional dos agentes). As ordens de serviço dos primeiros anos de vida da PVDE incluem numerosas punições a funcionários desta, justificadas por motivos como corrupção, abuso de autoridade ou desleixo no cumprimento do dever (maus tratos a prisioneiros não são causa de punição). São igualmente frequentes as directivas de Lourenço no sentido dos seus subordinados evitarem situações embaraçosas para o prestígio da PVDE, como o contacto dos agentes com prostitutas. Na OS nº 173, de 22 de Junho de 1934, encontra-se um exemplo das sanções aplicadas aos “elementos maus” da polícia, que poderiam ir da repreensão averbada à expulsão da PVDE, dependendo da gravidade da falta e do comportamento anterior do visado:

“Que seja punido com dez dias de suspensão de exercício e vencimento, o agente José Júdice Leote Cavaco, porque, valendo-se da sua situação de agente desta Polícia e esquecendo as recomendações mais de uma vez feitas, interveio numa questão passada entre duas mulheres de vida fácil, com uma das quais está amancebado e tendo tomado o partido desta, entrou violentamente em casa da outra, invocando a sua autoridade, para a invectivar e ameaçar com prisão. Este agente esqueceu-se do respeito que deve a si próprio e à Corporação a que pertence e demonstrou não ter exacto conhecimento da responsabilidade que advém da autoridade de que qualquer funcionário policial está investido, autoridade que não se deve exorbitar para se não cair no ridículo ou na censura do público a cujo respeito e consideração só se poderá impor pelo seu porte moral e correcto proceder.”

Em Outubro desse ano, José Cavaco “marchou em diligência” no dia 4, regressando dois dias depois, e voltou a executar uma missão em 10 de Outubro. No entanto, a ordem de serviço nº 286, de 13 de Outubro de 1934, inclui o seguinte despacho: “Que seja demitido desde 11 do corrente, por ter abandonado o serviço nessa data, o agente nº 56/56 da SI (Secção Internacional), José Júdice Leote Cavaco.”

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Onde se incluía Soares Socialista


Ricardo Serrado foi recentemente entrevistado pelo Público e pela Antena 3 (no programa Prova Oral, de Fernando Alvim), a propósito do livro O Estado Novo e o Futebol (Prime Books, 2012). Além de questões ligadas à história do futebol português, como as origens de Benfica e FC Porto e as relações da modalidade com o poder político durante o Estado Novo, Serrado aborda a sua concepção pessoal do desporto-rei e o papel que este ocupa na sociedade.

No que respeita às declarações concedidas ao Público, é pena que o historiador não desenvolva mais o problema da falsificação da suposta acta de fundação do Sport Lisboa (em que contexto e com que objectivos o documento terá sido forjado?), tal como as divergências entre Serrado e os responsáveis do Benfica, relativamente às novas informações sobre os primeiros anos do clube, que terão levado o investigador a dar por findo o trabalho que desenvolvia no Centro de Documentação do SLB e na concretização do Museu Cosme Damião (um espaço ainda com data de abertura incerta).

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Às vezes uma coisa fode a outra e fica tudo fodido



No Verão de 1956, a equipa de futebol da Académica de Coimbra, onde Cândido de Oliveira treinava jogadores como Rocha, Bentes e Mário Wilson, realizou uma digressão a Angola e Moçambique. Após uma série ininterrupta de vitórias em território angolano, a Briosa foi calorosamente recebida no aeroporto de Mavalane, em Lourenço Marques (a AAC não voltara a Moçambique desde 1938), no dia 20 de Agosto. Cândido de Oliveira, conhecido como “mestre Cândido”, foi particularmente bem acolhido. Os membros do Núcleo Casapiano de Moçambique, fundado em 1934, deslocaram-se a Mavalane para saudar o Chumbaca, abraçado por personalidades como António Roquete, o antigo guarda-redes do Casa Pia e da selecção nacional em cuja vida Cândido fora decisivo (as relações entre ambos terão mudado em 1942, quando Cândido foi preso pela PVDE, a polícia na qual o antigo guarda-redes trabalhava). Roquete estaria presente na homenagem pública a Cândido de Oliveira que os casapianos de Lourenço Marques promoveram a 28 de Agosto, no restaurante Peninsular. O então treinador da Académica constituía uma referência para os ex-alunos da Casa Pia de Lisboa. Durante as duas semanas em que a AAC permaneceu em Moçambique, além dos banquetes e recepções públicas à equipa coimbrã (diplomados pela Universidade de Coimbra a residir em Moçambique, como o advogado Almeida Santos, participaram nesses eventos), Cândido seria alvo de outras solicitações e homenagens. Na sede do Desportivo, o técnico e jornalista proferiu a conferência “Futebol, Técnica e Táctica” (título de um dos seus livros). Cândido aproveitaria para fazer uma breve viagem de avião ao Norte de Moçambique, “em visita a uma pessoa de família” (Notícias, 30 de Agosto de 1956).

Em Lourenço Marques, a Académica disputou quatro partidas, frente aos principais clubes locais, Sporting, Desportivo e Ferroviário, e a um misto de jogadores das três equipas. Derrotados por 2-1 quer pelo Sporting quer pelo Desportivo, os “estudantes” triunfaram sobre o Ferroviário (4-2) e o misto laurentino (2-1). Embora os meios desportivos de Moçambique desejassem assistir a mais jogos com a AAC, em especial na Beira, a Académica estava pressionada pelo iminente começo do campeonato da I Divisão (a 9 de Setembro, em Alvalade). Os coimbrões deixaram Lourenço Marques em 2 de Setembro, passando por Luanda para defrontar a selecção local antes de regressarem à metrópole.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Nos momentos difíceis agimos por si



Henrique Raposo é um provocador nato que gosta de desmontar os lugares-comuns que considera circularem entre a elite (sobretudo a de esquerda) da III República. Na sua História Politicamente Incorrecta do Portugal Contemporâneo (Guerra e Paz, 2013), Raposo pretende ser “um mero recolector de factos incómodos” (p. 13), mas a obra é bem mais um ensaio político (de qualidade e pertinência inegáveis) que um livro de história. Na verdade, os factos apresentados pelo autor sobre temas como as relações entre Estado Novo e Igreja Católica, a participação portuguesa nas primeiras décadas da construção europeia, o desenvolvimento económico dos “trinta gloriosos” ou as posições colonialistas do republicanismo estão longe de ser novidade. De resto, Raposo destaca na bibliografia a influência de autores como Rui Ramos, através da História de Portugal por este coordenada e dos ensaios do historiador reunidos em Outra Opinião (O Independente, 2004). São numerosas as referências bibliográficas a artigos de investigação publicados na Análise Social, o que indicia a qualidade científica e diversidade temática da revista e dos livros editados pelo ICS. Por outro lado, historiadores como Fernando Rosas e Raquel Varela estão, obviamente, ausentes da bibliografia consultada por Raposo.

No capítulo “Álvaro Cunhal venceu”, Henrique Raposo contrapõe ao sectarismo do secretário-geral do PCP, “um partido que nunca quis viver em democracia” (p. 115), o “breve interlúdio” dos anos 50 e do V Congresso, quando, durante a prisão de Cunhal, o seu rival Júlio Fogaça, então figura dominante da direcção comunista, admitiu uma transição pacífica da ditadura para a democracia e abriu o PCP à colaboração em pé de igualdade com toda a oposição ao Estado Novo; “em consequência”, Fogaça “apoiou Humberto Delgado em 1958” (p. 115). Depois de fugir da cadeia de Peniche, Álvaro Cunhal teria feito o partido voltar à ortodoxia marxista-leninista e sabotado qualquer esforço unitário da oposição. O terceiro volume da biografia de Cunhal escrita por José Pacheco Pereira, O Prisioneiro (2ª edição, Temas e Debates, 2006) conta uma história algo diferente. Para lá do papel decisivo de Fogaça nos anos de isolamento e hostilidade comunista para com os restantes sectores oposicionistas, durante a primeira metade dos anos 50, a atitude da direcção do PCP perante as eleições presidenciais de 1958 foi errática. Depois de apostar numa candidatura de Cunha Leal que não se concretizou, o PCP lançou Arlindo Vicente contra o “fascista” Humberto Delgado. Só pressionados pelos militantes, muitos dos quais apoiaram Delgado, e depois de verem a dimensão da agitação anti-salazarista provocada pela candidatura do general é que os dirigentes comunistas se viram obrigados a ordenar a desistência de Vicente e aceitar a fusão das candidaturas.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Bendito sábado chuvoso passado na Biblioteca Nacional



Um pouco de umbiguismo:

O site (ainda em construção) do Centro de História do Futebol e do Desporto, alojado no portal Football Dream, divulga os objectivos da unidade de investigação liderada por Ricardo Serrado, a obra já produzida pelo CHFD e os projectos a desenvolver, como um curso livre em torno da história e filosofia do desporto. Outra actividade em curso é a reunião de um acervo (composto por livros, revistas, folhetos e outros materiais) sobre história do desporto, destinado à consulta dos investigadores que analisem o tema. As caixas de comentários deste blogue estão abertas a contactos de quaisquer pessoas ou entidades interessadas em estabelecer parcerias com o CHFD.

No campo da banda desenhada, o site Central Comics está a assinalar o seu aniversário promovendo o Troféu “Heróis da Década”, que visa premiar as melhores obras da BD publicada em Portugal entre 2001 e 2012. O argumentista Fernando Dordio Campos, da série C.A.O.S., está nomeado na categoria de Melhor Argumentista Nacional, além do primeiro número de C.A.O.S. ser um dos candidatos ao prémio de Melhor Publicação Independente. A concorrência entre os nomes sujeitos à votação, que se prolonga até 31 de Janeiro, é muito forte, mas a selecção feita pela Central Comics constitui o reconhecimento da qualidade do trabalho de um dos maiores autores actuais da BD portuguesa (seria igualmente justa a presença de Osvaldo Medina nos nomeados para Melhor Artista Nacional).

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A estupidez não tem de magoar imediatamente



No dia 25 de Novembro, foi lançado no ambiente opressivo da Fnac Chiado o novo livro de Fernando Rosas, Salazar e o Poder. A Arte de Saber Durar (Tinta da China, 2012), que procura responder a uma questão (apenas) aparentemente simples: porque durou o Estado Novo tantos anos? Para lá de factores como os apoios que Salazar recebeu (da Igreja, das elites económicas, etc.) e a violência preventiva e repressiva, Rosas destaca a relevância da obediência das Forças Armadas ao regime, mesmo nas fases mais difíceis para este. O controlo das chefias militares que Salazar assegurou a partir da década de 30 foi essencial para a estabilidade da ditadura (que cairia por acção dos oficiais intermédios), até porque era precisamente a força armada que faltava às oposições para derrubar o Estado Novo. 

A propósito dos episódios que, durante o lançamento do ensaio, Fernando Rosas e José Pacheco Pereira contaram com o objectivo de retratar a omnipresença do medo no Portugal de Salazar, e tendo em conta quer o desenvolvimento que a literatura autobiográfica (como as obras de memórias editadas pela Alêtheia) conhece actualmente quer a riqueza do percurso político e profissional de Rosas, seria interessante se o historiador resolvesse escrever sobre a sua experiência pessoal, ou pelo menos parte dela. No entanto, a falta de aptidão para a biografia que Rosas confessa na introdução de Salazar e o Poder e a afirmação de Pacheco Pereira segundo a qual a obra do presidente do IHC é uma história não propriamente narrativa mas sobretudo problematizante tornam pouco provável a hipótese de Rosas abordar a sua própria vida como objecto de estudo.

sábado, 17 de novembro de 2012

Conserva inabalável a fé nos destinos do clube



O livro Eu Fui Agente da DGS-PIDE (Ecopy, 2011), de Emídio Oliveira, é especialmente valioso pela raridade, entre os testemunhos existentes de indivíduos visados pelo processo de justiça política na transição para a democracia, de depoimentos escritos por antigos funcionários da polícia política. Emídio José Cabrita de Oliveira (1947-) fez parte da DGS entre 1971 e 1974, trabalhando sobretudo no controlo das fronteiras no Aeroporto de Faro, como pretendia. Ingressou na polícia depois de ter cumprido o serviço militar, que terminou mais cedo que o previsto devido a doença, como enfermeiro nos hospitais do Exército na Estrela e em Campolide, onde observou o sofrimento dos feridos vindos de África (de acordo com o relato de Oliveira, essa experiência pouco ou nada teve a ver com o que lhe aconteceu mais tarde).

Oliveira nega ter conhecido ou participado em quaisquer actos de violência e crueldade contra presos políticos, reafirmando a sua inocência. De resto, “muitos de nós, os mais novatos, não estávamos politizados ao ponto de defendermos, em consciência, um regime político-ideológico tipo fascista. Falo por mim que sinceramente, me considerava um funcionário integrado num organismo público que defendia a Nação.” (pp. 107-108) Além do trabalho no aeroporto, onde conheceu gente famosa, Oliveira conta ter desempenhado missões como a segurança de ministros em visita ao Algarve ou a investigação do roubo numa pedreira de explosivos que terão sido usados no atentado da ARA contra postes de alta tensão em 9 de Agosto de 1972.

Além de reproduzir artigos da revista Continuidade e publicar as suas incursões na poesia, o autor narra o que viveu depois dos dias 25 e 26 de Abril de 1974, quando em Faro os agentes da DGS, mal informados sobre o golpe militar e alvo de manifestações de ódio, admitiam ainda continuar a trabalhar para o Estado noutro organismo. A 27, os “pides” são detidos no quartel do Regimento de Infantaria, de onde serão levados para a Cadeia de Faro e, a 3 de Julho, para a Penitenciária de Lisboa. Emídio Oliveira passará cerca de um ano e meio (será libertado em 17-02-76) no estabelecimento prisional da capital, cujo quotidiano relata (neste ponto, as informações de Oliveira podem ser complementadas com as de outro preso, José Luís Pinto de Sá, na obra Conquistadores de Almas). Pelo meio da revolta e das saudades da família que o narrador sente, sucedem-se acontecimentos como o motim de 11 de Agosto de 1974, os piquetes e manifestações junto da prisão, o 28 de Setembro, as exposições dos presos políticos às autoridades militares, o primeiro Natal na Penitenciária, o 11 de Março, a transferência da maioria dos ex-“pides” para Alcoentre e posterior fuga, a publicação da Lei nº 8/75, de 25 de Julho (estabelecendo as penas a cumprir pelos funcionários e informadores da extinta policia política), o receio, a partir de Setembro de 1975, da possível entrada na prisão de grupos armados com o fim de liquidar os detidos, ou o 25 de Novembro, que permitiu a prestação de declarações e saída em liberdade provisória dos antigos membros da DGS. No caso de Oliveira, o processo seria concluído em 1979 com a condenação do autor de Eu Fui Agente da DGS-PIDE a 4 dias de prisão preventiva, já expiada, e a sua reintegração na função pública.

O testemunho de Emídio Oliveira fornece dados relevantes e adiciona uma perspectiva “humana” do fenómeno da justiça política revolucionária, no qual o desejo de punição da PIDE/DGS por parte dos antigos opositores do Estado Novo acabou por colidir com os problemas legais criados pela prisão irregular de milhares de pessoas e a busca da “pacificação” da sociedade portuguesa que emergiu do final do PREC.

domingo, 4 de novembro de 2012

Tá-se bem, os putos de Belém



A propósito da questão da eventual instrumentalização do desporto, e em especial do futebol, pelo regime de Salazar (à qual Ricardo Serrado regressa num novo livro, O Estado Novo e o Futebol, editado pela Prime Books), merece comentário o capítulo da obra História de Portugal em Datas (Círculo de Leitores, 1994) sobre o período de 1926-1974, assinado por João Paulo Avelãs Nunes. Numa entrada sobre a data de 3 de Dezembro de 1933, o historiador coimbrão escreve:

“Marcando de forma “espectacular” o encerramento do Congresso dos Clubes Desportivos e o esforço realizado pelo Estado Novo no sentido de assegurar a instrumentalização ideológica do fenómeno desportivo, realiza-se em Lisboa, no Terreiro do Paço, uma “parada desportiva” em homenagem ao presidente do Conselho.” (p. 324)

Promovido pelo jornal Os Sports, o Congresso dos Clubes Desportivos, realizado em Lisboa entre 26 de Novembro e 3 de Dezembro de 1933, serviu para as colectividades representadas expressarem a sua insatisfação com as carências aflitivas de estruturas para a prática do desporto e o inexistente apoio do Estado aos clubes, sujeitos a uma elevada carga fiscal. O documento aprovado pelos congressistas reúne vários pedidos dirigidos ao Governo presidido por Salazar. Uma parada dos atletas de clubes de Lisboa e arredores e dos membros dos cursos de ginástica infantil apoiados por Os Sports irá acompanhar a comissão organizadora do Congresso ao Terreiro do Paço, onde os “votos” da reunião serão apresentados ao Presidente do Conselho. Enquanto os desportistas se reúnem na praça, Raul de Oliveira, director de Os Sports, lê o documento no qual são lembradas as funções sociais e educativas do desporto, considerado essencial para a valorização física dos portugueses, ou como se diz então, o “rejuvenescimento físico da raça”. Para desenvolver a sua actividade de carácter patriótico, os clubes necessitavam, no entanto, do apoio estatal, tanto ao nível da regulamentação como da construção de infra-estruturas. Raul de Oliveira propõe medidas como a criação de um organismo governamental que regule o desporto, a formação por uma Escola Superior de Educação Física de técnicos habilitados a difundir as práticas atléticas pelo país e a construção pelo Estado de equipamentos desportivos, nomeadamente um Estádio Nacional em Lisboa. Em resposta, Salazar dirige-se ao microfone para fazer um dos poucos discursos onde aborda o fenómeno desportivo, considerando a educação física importante para a “formação da pessoa humana”, inclusive a nível moral, e lamentando que muitos jovens das cidades, ao invés de se exercitarem em contacto com a Natureza (por exemplo, praticando desportos náuticos no Tejo), passem o tempo nos cafés a discutir questões de “baixa política”. Por fim, Salazar anuncia à multidão que “teremos em breve o Estádio Nacional” (viria a ser inaugurado em 1944), assistindo depois ao desfile dos desportistas (Os Sports, 4 de Dezembro de 1933).

O episódio revela, mais que uma instrumentalização ideológica do desporto português pelo jovem Estado Novo, a busca pelos dirigentes desportivos de uma nova relação com o poder político, do qual pretendem uma maior intervenção, com vista a resolver as múltiplas dificuldades com que os clubes então se debatem. A parada de atletas seria uma prova da força social e popularidade que o desporto já alcançara em Portugal, justificando maior atenção do Estado. Em troca, o desporto oferecia ao regime uma educação física por este controlada que não só melhorasse a saúde e resistência dos portugueses como lhes ensinasse hábitos de disciplina e integração nos princípios do salazarismo. Assim, “A promessa da construção do Estádio Nacional representou uma espécie de aliança entre o Estado Novo e os dirigentes desportivos, com vista à satisfação de interesses mútuos” (SERRADO, Ricardo, SERRA, Pedro, História do Futebol Português, Uma análise social e cultural, vol. I, Das Origens ao 25 de Abril, Lisboa, Prime Books, 2010, p. 189).

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Calai-vos ou vai tudo raso!



Gabriel Mithá Ribeiro, autor de O Ensino da História (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2012), baseia-se na sua experiência como professor de História no ensino básico e secundário (da qual dá vários exemplos no livro, como a sua atitude impiedosa perante a indisciplina dos alunos) para criticar as orientações que os responsáveis do Ministério da Educação têm enviado às escolas. Opositor da corrente pedagógica “progressista” predominante nas últimas décadas, Mithá Ribeiro acredita que “o sistema tem de se tornar tendencial e essencialmente conservador” (p. 98), ou seja, a escola deve transmitir “saberes académicos e científicos sedimentados ao longo da história civilizacional do Ocidente” (p. 36). O professor insurge-se contra o “ensino centrado no aluno” criado pelas “Ciências da Educação” (entre aspas no original), que, dedicando-se apenas aos aspectos didácticos e pedagógicos, falha no essencial, a divulgação do conhecimento. 

Em O Ensino da História e outros livros, Gabriel Mithá Ribeiro reage (trata-se, exactamente, de um “reaccionário”) à prática e pensamento educativos desenvolvidos após o 25 de Abril num contexto de ruptura com aquilo que teria marcado a escola do Estado Novo: a autoridade inflexível e opressora do professor, as aulas meramente expositivas, a valorização excessiva da memorização, a apologia do colonialismo, a diabolização da I República, as sínteses historiográficas sem fontes nem qualquer apelo à iniciativa do aluno presentes em compêndios como os de António Gonçalves Mattoso, o isolamento do ensino em relação à sociedade da qual provêm os estudantes, o trabalho apenas individual, etc. É curioso verificar a quase simetria entre O Ensino da História e Um Rumo para a Educação (Editorial República, 1974), de Vitorino Magalhães Godinho, ministro da Educação e Cultura no II e III Governos Provisórios. Enquanto Godinho se preocupava em abrir a escola ao exterior e promover a ligação com a comunidade, Mithá Ribeiro dá a um capítulo o título “Fechar a porta da sala de aula e o portão da escola” (p. 32). As ideias dos autores sobre o modelo das aulas e a actividade dos alunos também são exactamente opostas.

Sem manifestar saudosismos, Gabriel Mithá Ribeiro pensa que os pedagogos e governantes da democracia levaram a educação portuguesa de um extremo para o outro, descurando a necessidade de equilíbrio. Numa corrente adversária, encontram-se estudiosos como António Teodoro, autor do artigo “Uma escola democrática, inclusiva e exigente” (Público, 22-10-2012, p. 47), que se baseia na investigação das Ciências da Educação (agora sem aspas) para apontar problemas actuais do ensino como “um curriculum escolar ainda organizado em termos de conhecimento disciplinar” e “uma formação de professores centrada num conhecimento disciplinar que subalterniza a construção de saberes práticos”.