Encontrar algo útil no meio da tralha é parte essencial do trabalho de um historiador.
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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Água e mulher, só boa se quer

O texto mordaz de José de Pina e as ilustrações de João Fazenda tornam Nascido para Mandar. Guia para chegar ao Poder em Portugal (Gradiva, 2004) um livro muito divertido e uma fonte valiosa sobre a política portuguesa (e a imagem pública desta) na transição entre os séculos XX e XXI. O objectivo do “guia” de Pina, na altura um dos argumentistas do Contra-Informação, é indicar ao leitor como alcançar e manter o poder no nosso sistema político-partidário (incluindo o “Partido do Futebol”, cuja influência sobre os políticos era então descoberta), recorrendo a exemplos recentes para analisar como, num cenário de “revolução informática e comunicacional” (p. 12), a forma de fazer política em Portugal se alterou completamente desde os primeiros anos de democracia.


No final da introdução, editor e autor apelam aos leitores para que escrevam a relatar mudanças e novidades entretanto ocorridas, de modo a permitir “fazer uma próxima edição ainda melhor” (p. 13). De facto, Nascido para Mandar veio a público em Maio de 2004, poucos meses antes do consulado de Pedro Santana Lopes, marcado por abundantes episódios que seriam certamente aproveitados por José de Pina. No entanto, a ausência de uma nova edição da obra fez com que esta, sem perder a graça, se desactualizasse em vários aspectos. Por exemplo, Pina ainda aconselha o aspirante a político a fazer uma licenciatura a sério, com a duração de cinco anos e de preferência numa universidade pública (p. 57), assim como afirma, após ponderação e sem ironia, que “não é aconselhável ser presidente ou ter um cargo de muito destaque numa juventude partidária”, indicando razões como a imagem de envelhecimento prematuro fornecida pelos muitos anos de actividade política a “jotas” como António José Seguro (pp. 62-63). Com a excepção do presidente do Governo Regional da Madeira, muito do que é abordado no livro mudou nos últimos dez anos. Deste modo, urge que Pina e Fazenda voltem a trabalhar juntos para criar um Nascido para Mandar que combine a observação satírica dos bastidores partidários com o retrato das circunstâncias políticas do Portugal da troika, naquilo que este tem de cómico e trágico.

sábado, 24 de agosto de 2013

Greve geral até ao Natal


Depois de concluir, com o estudo da I República, os doze primeiros volumes da sua História de Portugal, Joaquim Veríssimo Serrão foi além do plano original e passou à reconstituição dos acontecimentos do período entre 1926 e 1974, para o qual prefere a designação “II República” à de “Estado Novo”. Acerca desta fase da história portuguesa, o historiador escalabitano publicou até agora seis volumes, abordando o volume XVIII (Verbo, 2010) os anos entre 1960 e 1968, que terminam com a queda de Salazar e a subida à Presidência do Conselho de Marcelo Caetano. De acordo com o anunciado por Veríssimo Serrão, o período de governo do seu amigo Caetano (correspondência trocada entre os dois antes e depois do 25 de Abril encontra-se publicada) ocupará o volume XIX e último da História de Portugal, possivelmente já concluído pelo autor mas ainda inédito.

Se, de acordo com as introduções dos diversos volumes da monumental obra, a origem do impulso que levou Joaquim Veríssimo Serrão a lançar, em 1977 (quando se encontrava fora da docência por ter sido saneado pelo novo regime), o projecto da sua História de Portugal se encontra nas críticas injustas a grandes figuras do passado nacional e ao esforço colonizador dos Portugueses feitas, na sua opinião, durante os anos revolucionários, os trabalhos do investigador sobre o período posterior ao 28 de Maio orientam-se pela preocupação de reabilitar os protagonistas da ditadura. É pena que, na defesa intransigente desta, Veríssimo Serrão proceda a uma leitura acrítica de um âmbito reduzido de fontes (para narrar os eventos políticos de 1960-1968, o autor recorreu sobretudo ao Diário do Governo, aos discursos de Salazar, às memórias de Américo Tomás e aos livros de Franco Nogueira) e, nas obras citadas em rodapé, omita propositadamente quase toda a historiografia sobre o Estado Novo produzida nas últimas décadas (no volume XVIII, uma excepção é a compilação feita por Filipe Ribeiro de Meneses da correspondência produzida pelos diplomatas irlandeses acreditados em Lisboa entre 1941 e 1970, cuja publicação é saudada por Veríssimo Serrão). No entanto, existem vários aspectos úteis no volume XVIII da História de Portugal, como o tom autobiográfico (Veríssimo Serrão recorre frequentemente a contactos e experiências pessoais para ilustrar os factos narrados), o registo de grande parte das nomeações oficiais, que contribui para um melhor conhecimento do pessoal político, militar, colonial e diplomático do regime de Salazar, ou a descrição do “itinerário” de Américo Tomás, interessante para a história das localidades visitadas pelo então Presidente da República.

No que respeita ao futebol, cuja visibilidade pública se tornou (ainda) maior nos anos 60 devido aos êxitos da selecção, do Benfica e do Sporting em competições internacionais, Veríssimo Serrão (que, relativamente aos acontecimentos desportivos, complementa a sua memória com a consulta da revista O Século Ilustrado) parece dar argumentos aos que defendem a existência de uma relação próxima entre a ditadura e o desporto-rei. De acordo com Serrão, a satisfação das multidões que assistiam aos jogos dos seus clubes preferidos tinha “os seus efeitos políticos” (p. 22) e os responsáveis da II República beneficiavam das relações cordiais que estabeleciam com o meio futebolístico, expressas em deslocações aos recintos desportivos aquando de ocasiões especiais, como a inauguração, em 6 de Outubro de 1960, do terceiro anel do Estádio da Luz, onde Américo Tomás recebeu uma ovação, apesar das manifestações que no dia anterior tinham sido promovidas por opositores da ditadura (p. 23). Além disso, o desporto servia como “factor de aglutinação dos Portugueses” da Europa e de África, já que muitos futebolistas naturais de Guiné, Angola e Moçambique actuavam então em clubes da metrópole, cujos adeptos os idolatravam, sem “nenhum preconceito racial” (p. 22). Moçambicanos como Eusébio e Coluna “foram saudados na metrópole como irmãos portugueses” (p. 425) e integraram a selecção nacional que brilhou no Campeonato do Mundo de 1966, obtendo um terceiro lugar que, para Veríssimo Serrão, “constituiu um refrigério para a vida diplomática” de Portugal (p. 223), então atacado nas Nações Unidas devido à prática de colonialismo (desmentida pelo autor de História de Portugal, que reproduz as teses defendidas por Salazar e Franco Nogueira) em África.


Joaquim Veríssimo Serrão designa a conclusão da História de Portugal como “um dos derradeiros vínculos que me prendem ao mundo da vida” (p. 13), incentivando a curiosidade dos leitores sobre como o velho historiador contará o marcelismo. Além dos êxitos governativos que provavelmente atribuirá a Caetano, interessa saber que causas Veríssimo Serrão encontrará para o 25 de Abril, o qual pôs fim à existência de Portugal como “nação euro-ultramarina” e, na óptica do investigador, inviabilizou o projecto a longo prazo para a África portuguesa formulado pela II República.

domingo, 4 de agosto de 2013

Não consigo aceitar a ideia de comer coelho


Na rubrica “As férias da minha vida” da Visão de 19 de Julho de 2007, o deputado do PSD Miguel Relvas assina o seguinte texto:

“Brasil, 2000

As minhas férias maravilha foram passadas no Brasil, há sete anos – faz em Agosto -, com a minha mulher e filha (...). Passámos dois dias em Salvador da Baía, a fazer um roteiro de turismo cultural e depois fomos descansar para um resort na Ilha de Comandatuba (Ilhéus), onde se podia fazer quase tudo. Havia ginásio, actividades na piscina, de hora a hora, sauna, motas de água, até uma pista de aviação havia na ilha. Tinha uma das paisagens mais bonitas que já vi. Deu para “giboiar” (brasileirismo para descansar), olhar para o céu, passar a tarde a dormir nas redes suspensas, ler. Foram umas férias dedicadas a Eça de Queirós. Li a tese de doutoramento da Maria Filomena Mónica sobre Eça e o Dicionário Gastroeconómico (sic) Cultural de Eça de Queirós, do Dário Castro Alves. Não voltei mais à ilha. Sempre ouvi dizer que o segundo prato de sopa nunca sabe tão bem como o primeiro e que nunca se é feliz duas vezes no mesmo lugar.” (p. 38)



Miguel Relvas manifestava já uma forte ligação sentimental ao Brasil, recentemente realçada pelo cargo que assumiu. No entanto, a referência do então deputado às duas obras sobre Eça de Queirós que leu em Ilhéus (os livros de Mónica e Castro Alves integram esta lista bibliográfica sobre Eça) provoca dúvidas. Maria Filomena Mónica doutorou-se em Sociologia pela Universidade de Oxford, através de uma tese com o título português Educação e Sociedade no Portugal de Salazar (Presença, 1978), e a sua biografia de Eça de Queirós foi publicada pela primeira vez em 2001, um ano depois das férias paradisíacas de Relvas na ilha de Comandatuba (em 2000, de resto, foi oficialmente assinalado o centenário da morte de Eça). O título correcto do trabalho (em dois volumes) referido do embaixador Dário Moreira Castro Alves é Era Tormes e Amanhecia. Dicionário Gastronómico Cultural de Eça de Queirós (Livros do Brasil, 1992). A gralha existente no depoimento de Relvas é, curiosamente, idêntica à da ficha do livro na livraria online Wook. Houve, decerto, algum lapso por parte da Visão ou do futuro ministro.

Ou então, Relvas mentiu em 2007 para dar uma imagem de si mesmo diferente da realidade. Mas isso é pouco provável.

domingo, 7 de julho de 2013

António, traz-me uma vespa

Mais que um romance, Madrugada Suja (Clube do Autor, 2013) constitui uma exposição da visão de Portugal do seu autor, Miguel Sousa Tavares. De resto, o enredo (que serve as digressões temáticas do romancista e não o contrário) é pobre e as personagens mal construídas, longe do que Sousa Tavares mostrou ser capaz de fazer em Equador. Para lá de ocasionais gralhas, existem várias incongruências, não se percebendo bem se a história se passa em 1997 ou na actualidade. Em compensação, encontramos elementos familiares do universo do escritor (caça, peixe, Alentejo, FC Porto, etc.) e as opiniões ácidas de Sousa Tavares sobre temas das últimas décadas como a Reforma Agrária, a suburbanização, a corrupção nas autarquias, a construção ilegal em áreas protegidas, a justiça, o jornalismo, os partidos, a arquitectura e o envolvimento dos ciganos no tráfico de droga, entre outros.


Miguel Sousa Tavares não deixa de se referir, aqui sem alusões circenses, a Cavaco Silva (não escrevendo o nome deste), visto assim pelos olhos de uma personagem da mesma família política do algarvio: “ (...) um enfatuado, que se referia a si próprio como “o Presidente”, e que gostava de se demarcar dos seus pares e afirmar-se como um homem sério, face à miséria endógena dos “políticos” – muito embora a sua ascensão ao topo tivesse sido toda ela feita de manobras, conspirações e jogadas meticulosamente calculadas da mais banal política. Subira sem jamais se prestar aos combates de risco, cultivando uma imagem de homem íntegro, diferente, sem vícios nem fraquezas. (...) o Presidente nunca se misturara, nunca se arriscara, nunca vira nada, nunca soubera de nada. E, quando os seus próximos caíam na lama, virava a cara para o lado e fazia um ar pesaroso, de amigo enganado. (...)” (pp. 330-331)

sábado, 29 de junho de 2013

O hoje é o ontem de amanhã

No XI Congresso da Juventude Social Democrata, em 1994, iniciou-se um novo mandato da Comissão Política Nacional da organização, presidida desde 1990 por Pedro Passos Coelho. Então com 30 anos, Passos Coelho apresentou-se ao sufrágio dos militantes com uma lista que incluía ainda Nuno Freitas, Pedro Gomes, José Paulo, João Luís Gonçalves, Jorge Moreira da Silva (futuro sucessor de Passos na liderança da “jota”), Rui Martins, Feliciano Barreiras Duarte, Tó Silva, Francisco Braga, Carlos Reis, Gonçalo Capitão e Cristina Melo. A moção de Passos Coelho ao congresso, Acertar o Passo, foi editada num pequeno livro onde os membros da lista são identificados com uma fotografia e uma breve citação sua (a frase do líder é “Adiar é perder”).

Na introdução de Acertar o Passo, Passos Coelho reclama maior autonomia para a JSD, “lutando contra o contágio da acomodação e a facilidade do jogo interno do PSD” (p. 3), e alerta para o desencanto crescente com o cavaquismo que se seguira à esperança na base das maiorias absolutas de Cavaco Silva. A moção apresenta propostas dos jovens sociais-democratas sobre temas como educação, combate à droga, União Europeia, mudanças no sistema político (como o desaparecimento da idade mínima legal de 35 anos para os candidatos à Presidência da República) ou medidas governativas viradas para a juventude.

A nível ideológico, Passos Coelho considera que seria “criminoso negar os problemas actuais do Estado-Providência”, mas “igualmente infame” aproveitar um contexto de crise económica (20 milhões de desempregados nos 12 países comunitários) “que penaliza com especial severidade as classes média e baixa” para “contrapor modelos neo e mesmo ultra-liberais de putativa vanguarda da teoria económica” (p. 4). Por outro lado, impõe-se em 1994 “uma nova lógica de protecção social”, uma vez que “o Estado Social avançado tende a dissociar o esforço da recompensa, criando desincentivos ao trabalho, à poupança e ao espírito de iniciativa” Não é aceitável, para o presidente da JSD, que “grande parte dos recursos sejam dispendidos a indemnizar quem não tem trabalho em vez de o ser com a criação de condições para lhe permitir o regresso ao trabalho” (p. 6).


Pedro Passos Coelho deixaria a liderança da JSD no ano seguinte, candidatando-se à presidência da Câmara da Amadora nas autárquicas de 1997, quando foi eleito vereador.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Os bebés de hoje são os alicerces da raça

O Playboy que Chora nas Canções de Amor (Verso da Kapa, 2007) revela, entre posts, crónicas, contos, humor e tragédia, o mundo de Luís Filipe Borges, numa antologia reeditada em 2010 com o título A Vida É Só Fumaça (apenas a capa foi alterada, permanecendo inclusive o texto onde Borges explica o título original). O argumentista açoriano, actualmente um dos apresentadores do 5 Para a Meia-Noite, expõe de forma confessional os seus sentimentos e ambições, alternando o sorriso com a emoção. No entanto, embora o resultado seja bastante interessante e superior ao do livro anterior de Borges, Sou Português... e Agora? (A Esfera dos Livros, 2006), fica-se com a sensação que o Boinas não ultrapassa uma dada fasquia, ou seja, é médio mas não é brilhante, quer dizer, sabe dar uns toques na bola mas não faz o público vibrar... em resumo, Luís Filipe Borges não é Ricardo Araújo Pereira, agora premiado pela APE pelo livro Novas Crónicas da Boca do Inferno.

Apesar de terem em comum a origem nas Produções Fictícias, o gosto pela literatura e a presença assídua no Estádio da Luz, Borges e Araújo Pereira estão longe de serem amigos. A propósito do livro de poesia Mudaremos o Mundo Depois das 3 da Manhã (Tágide, 2003), onde Borges inclui, entre outros, o poema “Mãe”, os Gato Fedorento conceberam o sketchGente que não vai a lado nenhum” (um dos poucos das quatro séries de Gato Fedorento que parecem ter sido criados a pensar especificamente numa pessoa), onde satirizam Boinas e os amigos deste (como o actor Tiago Rodrigues), que, pelos vistos, se dedicam com paixão ao elogio mútuo. As razões da zanga entre os humoristas não são claras, mas ainda não foram totalmente esquecidas por Luís Filipe Borges, que, numa entrevista recente à Notícias TV, sem nomear o quarteto, afirma: “Quero é enterrar machados, passou, que se lixe! Quero é que os gajos sejam felizes a fazer as cenas deles.” Na verdade, há espaço para todos no humor (e nos livros) em Portugal.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Nos momentos difíceis agimos por si



Henrique Raposo é um provocador nato que gosta de desmontar os lugares-comuns que considera circularem entre a elite (sobretudo a de esquerda) da III República. Na sua História Politicamente Incorrecta do Portugal Contemporâneo (Guerra e Paz, 2013), Raposo pretende ser “um mero recolector de factos incómodos” (p. 13), mas a obra é bem mais um ensaio político (de qualidade e pertinência inegáveis) que um livro de história. Na verdade, os factos apresentados pelo autor sobre temas como as relações entre Estado Novo e Igreja Católica, a participação portuguesa nas primeiras décadas da construção europeia, o desenvolvimento económico dos “trinta gloriosos” ou as posições colonialistas do republicanismo estão longe de ser novidade. De resto, Raposo destaca na bibliografia a influência de autores como Rui Ramos, através da História de Portugal por este coordenada e dos ensaios do historiador reunidos em Outra Opinião (O Independente, 2004). São numerosas as referências bibliográficas a artigos de investigação publicados na Análise Social, o que indicia a qualidade científica e diversidade temática da revista e dos livros editados pelo ICS. Por outro lado, historiadores como Fernando Rosas e Raquel Varela estão, obviamente, ausentes da bibliografia consultada por Raposo.

No capítulo “Álvaro Cunhal venceu”, Henrique Raposo contrapõe ao sectarismo do secretário-geral do PCP, “um partido que nunca quis viver em democracia” (p. 115), o “breve interlúdio” dos anos 50 e do V Congresso, quando, durante a prisão de Cunhal, o seu rival Júlio Fogaça, então figura dominante da direcção comunista, admitiu uma transição pacífica da ditadura para a democracia e abriu o PCP à colaboração em pé de igualdade com toda a oposição ao Estado Novo; “em consequência”, Fogaça “apoiou Humberto Delgado em 1958” (p. 115). Depois de fugir da cadeia de Peniche, Álvaro Cunhal teria feito o partido voltar à ortodoxia marxista-leninista e sabotado qualquer esforço unitário da oposição. O terceiro volume da biografia de Cunhal escrita por José Pacheco Pereira, O Prisioneiro (2ª edição, Temas e Debates, 2006) conta uma história algo diferente. Para lá do papel decisivo de Fogaça nos anos de isolamento e hostilidade comunista para com os restantes sectores oposicionistas, durante a primeira metade dos anos 50, a atitude da direcção do PCP perante as eleições presidenciais de 1958 foi errática. Depois de apostar numa candidatura de Cunha Leal que não se concretizou, o PCP lançou Arlindo Vicente contra o “fascista” Humberto Delgado. Só pressionados pelos militantes, muitos dos quais apoiaram Delgado, e depois de verem a dimensão da agitação anti-salazarista provocada pela candidatura do general é que os dirigentes comunistas se viram obrigados a ordenar a desistência de Vicente e aceitar a fusão das candidaturas.

domingo, 13 de janeiro de 2013

As forças do mal não desarmam



É já no final do seu livro de memórias, Percurso Solitário (Bertrand, 2006), que o jurista açoriano Augusto de Ataíde (1941-) relata a sua passagem pelo cargo de subsecretário (depois secretário) de Estado da Juventude e Desportos, que ocupou entre 15 de Janeiro de 1970 e 5 de Abril de 1973, quando passou para a Secretaria de Estado da Instrução e Cultura (foi substituído no pelouro da Juventude e Desportos por Orlando Valadão Chagas, efémero presidente do Sporting), que dirigiria até ao 25 de Abril. Escolhido por Marcelo Caetano, Ataíde trabalhou sob a direcção do ministro da Educação Nacional, José Veiga Simão, com quem partilhava o entusiasmo pelo projecto de transformação do país através do alargamento do ensino. Amigo de Amaro da Costa e Freitas do Amaral, Ataíde acreditava numa evolução pacífica do Estado Novo para a democracia, sofrendo a desilusão do fracasso do marcelismo.

No que respeita aos seus contactos com o sector desportivo enquanto governante, Augusto de Ataíde acredita que o desporto português de então não estava tão afectado por violência e corrupção como aconteceria nas décadas posteriores. O autor de Percurso Solitário considera igualmente não fazer sentido falar em três “efes”: “O Futebol idolatrado pelas massas não parece que as tenha especialmente atraído para o salazarismo…” (p. 321) Existiriam assim condições para uma relação fácil do Estado com os agentes desportivos, se o Ministério da Educação Nacional não tivesse a responsabilidade de se pronunciar sobre as mais diversas matérias da vida dos clubes e federações. Envolvidos “numa malha de autorizações, homologações e, em especial, recursos” (p. 321), Veiga Simão e Ataíde são alvo de numerosas pressões dos dirigentes desportivos e das autoridades locais, que assumem os interesses bairristas. Os pedidos de subsídios pelos clubes, numa altura em que estes são financiados sobretudo por mecenas, são também constantes. Perante as múltiplas solicitações, o Ministério assume geralmente uma posição de firmeza, como quando, no final da época de 1971/72, os adeptos da Académica tentam obter de Veiga Simão um alargamento da I Divisão que salve a AAC da descida.

Difundir a prática do desporto, especialmente entre as crianças e jovens sem condições para a ela aceder, é uma preocupação fulcral de Augusto de Ataíde, que, em conjunto com o director-geral dos Desportos, Armando Rocha, promove a construção, através do Fundo de Fomento do Desporto (financiado pelas receitas do Totobola), de infra-estruturas básicas como pavilhões gimnodesportivos. O subsecretário de Estado irá apoiar, através de subsídios e incentivos à colaboração das autarquias da Margem Sul, os Jogos Juvenis do Barreiro, uma iniciativa de desporto popular promovida pela esquerda local. Neste caso, hostilizando inicialmente um evento que lhe é exterior, o Estado solidariza-se com a promoção do fenómeno visando reduzir a influência comunista nos Jogos e integrar no âmbito oficial o fomento do desporto juvenil. Refira-se que neste período, ao observar a inacção e decadência da Mocidade Portuguesa, o MEN cria paralelamente a esta um conjunto de centros, baseados na adesão voluntária dos jovens, dedicados ao aproveitamento dos tempos livres dos alunos (o carácter misto e politicamente neutro desses centros causa a indignação dos mais conservadores, expressa em muitas cartas recebidas por Ataíde). No exercício das suas funções oficiais, Ataíde tem ainda a oportunidade de assistir aos Jogos Olímpicos de 1972 (um dos atletas portugueses é apanhado a roubar numa loja de Munique e enviado de volta ao país) e à Universíada (Jogos Mundiais Universitários) de 1973, realizada em Moscovo. 

De acordo com o relatado nas memórias de Augusto de Ataíde, a política desportiva do MEN sob a chefia de Veiga Simão (desconfortável com a teia burocrática criada pelo controlo cerrado do Estado Novo sobre a orgânica do desporto português) privilegiou a massificação e não o conteúdo ideológico, no que respeita às actividades atléticas fornecidas à juventude dentro e fora das escolas. No entanto, Ataíde queixa-se de que a imprensa desportiva, alinhada com a oposição ao regime, criticou sistematicamente os esforços ministeriais. De certa forma, o caso particular do desporto deixa antever o falhanço dos planos reformistas no quadro da ditadura, quando muitos agentes e teóricos desportivos acreditavam já que só uma ruptura política de carácter revolucionário poderia, entre muitos outros problemas, desbloquear a questão da difusão da prática desportiva por toda a população portuguesa.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Bendito sábado chuvoso passado na Biblioteca Nacional



Um pouco de umbiguismo:

O site (ainda em construção) do Centro de História do Futebol e do Desporto, alojado no portal Football Dream, divulga os objectivos da unidade de investigação liderada por Ricardo Serrado, a obra já produzida pelo CHFD e os projectos a desenvolver, como um curso livre em torno da história e filosofia do desporto. Outra actividade em curso é a reunião de um acervo (composto por livros, revistas, folhetos e outros materiais) sobre história do desporto, destinado à consulta dos investigadores que analisem o tema. As caixas de comentários deste blogue estão abertas a contactos de quaisquer pessoas ou entidades interessadas em estabelecer parcerias com o CHFD.

No campo da banda desenhada, o site Central Comics está a assinalar o seu aniversário promovendo o Troféu “Heróis da Década”, que visa premiar as melhores obras da BD publicada em Portugal entre 2001 e 2012. O argumentista Fernando Dordio Campos, da série C.A.O.S., está nomeado na categoria de Melhor Argumentista Nacional, além do primeiro número de C.A.O.S. ser um dos candidatos ao prémio de Melhor Publicação Independente. A concorrência entre os nomes sujeitos à votação, que se prolonga até 31 de Janeiro, é muito forte, mas a selecção feita pela Central Comics constitui o reconhecimento da qualidade do trabalho de um dos maiores autores actuais da BD portuguesa (seria igualmente justa a presença de Osvaldo Medina nos nomeados para Melhor Artista Nacional).

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Um político que promete corrupção



Em entrevista ao Diário de Notícias publicada a 17 de Dezembro, o jornalista Luís Miguel Pereira recorda que “Quando ia a Inglaterra, sobretudo em reportagem, apercebia-me de que havia um mercado imenso de livros de futebol e fazia-me um pouco de confusão não existir esse mercado em Portugal, à sua dimensão.” (p. 50) Compreendendo a lacuna, Pereira produziu em 2002 livros sobre Jardel e Laszlo Bölöni, assim como um Dicionário do Futebol (edições da Booktree), que tiveram grande sucesso e abriram um mercado por explorar. No ano seguinte, Estórias d’Alvalade, uma recolha de depoimentos organizada por Pereira sobre o estádio sportinguista inaugurado em 1956, foi a primeira obra publicada pela Prime Books, a editora que acolheria os livros seguintes do jornalista da SportTV. Até hoje (o mais recente, Missão Benfica, sobre a presidência de Luís Filipe Vieira, foi posto à venda no mês passado), Luís Miguel Pereira lançou em Portugal 25 livros, a que se somam as obras editadas em Espanha, Brasil, Inglaterra, Coreia do Sul, Japão e Polónia. 

Embora quantidade não seja o mesmo que qualidade, a descoberta por Luís Miguel Pereira do filão inexplorado em Portugal dos livros sobre futebol (antes de 2002, obras do género, além de manuais técnicos, eram lançadas esporadicamente, mas os editores ainda não se tinham apercebido do potencial comercial do tema) abriu portas a uma ampla actividade editorial. A Prime Books e outras chancelas (Quidnovi, Zebra, Casa das Letras, Oficina do Livro, Livros d’Hoje, etc.), estimuladas por fenómenos mediáticos como Cristiano Ronaldo e José Mourinho, publicaram muitas obras de análise do beautiful game, escritas sobretudo por jornalistas. No entanto, o interesse comprovado do público pelos livros sobre futebol favoreceu o aparecimento e publicação de investigação académica acerca da história e sociologia do desporto-rei, com os consequentes avanços no estudo deste.

Voltando a Luís Miguel Pereira, além dos seus trabalhos jornalísticos dedicados a treinadores e futebolistas (curiosamente, na entrevista atrás citada, Pereira afirma manter algum distanciamento nas relações pessoais com os protagonistas do futebol, em parte devido às reservas destes, o que contrasta com o caso de outro jornalista desportivo, João Malheiro), criou conceitos editoriais de sucesso como a série Caretas (em colaboração com os cartoonistas Ricardo Galvão, Carlos Laranjeira e Pedro Ribeiro Ferreira) e as Bíblias, onde aos “grandes” portugueses se seguiram clubes e selecções de Brasil e Espanha, com Pereira a desenvolver compilações de factos desportivos especificamente direccionadas a esses mercados. O reconhecimento obtido levou o jornalista ao Programa do Jô, numa projecção mediática que Pereira se queixa de não receber nos media portugueses. Independentemente da apreciação dos seus pares, Luís Miguel Pereira soma êxitos de vendas e contribui para enriquecer a agora vasta bibliografia portuguesa sobre futebol e desporto em geral.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Ele até comeria um comunista



O clássico humorístico As Lições do Tonecas (Livrolândia, 1988), de José de Oliveira Cosme, reúne diálogos representados no Rádio Clube Português nas décadas de 30 e 40, que depois inspirariam a série televisiva com Luís Aleluia e Morais e Castro (a RTP promoveu outras adaptações de antigos programas cómicos de rádio, como Zequinha e Lelé e Patilhas e Ventoinha, sem o mesmo sucesso). A obra de Oliveira Cosme, figura importante da rádio, banda desenhada e literatura infantil portuguesas do século XX, baseia-se sobretudo no desenvolvimento do trocadilho, com algumas referências à realidade social da época. No caso do futebol, encontra-se o seguinte excerto no texto “Uma lição de Geografia” (onde o Professor identifica a Itália como uma monarquia constitucional):

“Professor — (…) Ora, em Espanha, há mais cidades importantes, não há? (…) Zamora, menino! Nunca ouviu falar em Zamora?...
Tonecas — Já sim, senhor professor. Foi o melhor guarda-redes do Mundo…
Professor — Ó menino! Nós não estamos a tratar de futebol… Tratamos de Geografia… Zamora é uma cidade espanhola da província de Leão
Tonecas — E eu também, senhor professor!
Professor — O quê? O menino também é cidade?
Tonecas — Não sou cidade, mas sou “leão” e com muita honra, senhor professor!
Professor — E ele a dar-lhe com o futebol!... Naturalmente, é por isso que o menino dá tantos pontapés na Gramática… (…)” (p. 165)

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A estupidez não tem de magoar imediatamente



No dia 25 de Novembro, foi lançado no ambiente opressivo da Fnac Chiado o novo livro de Fernando Rosas, Salazar e o Poder. A Arte de Saber Durar (Tinta da China, 2012), que procura responder a uma questão (apenas) aparentemente simples: porque durou o Estado Novo tantos anos? Para lá de factores como os apoios que Salazar recebeu (da Igreja, das elites económicas, etc.) e a violência preventiva e repressiva, Rosas destaca a relevância da obediência das Forças Armadas ao regime, mesmo nas fases mais difíceis para este. O controlo das chefias militares que Salazar assegurou a partir da década de 30 foi essencial para a estabilidade da ditadura (que cairia por acção dos oficiais intermédios), até porque era precisamente a força armada que faltava às oposições para derrubar o Estado Novo. 

A propósito dos episódios que, durante o lançamento do ensaio, Fernando Rosas e José Pacheco Pereira contaram com o objectivo de retratar a omnipresença do medo no Portugal de Salazar, e tendo em conta quer o desenvolvimento que a literatura autobiográfica (como as obras de memórias editadas pela Alêtheia) conhece actualmente quer a riqueza do percurso político e profissional de Rosas, seria interessante se o historiador resolvesse escrever sobre a sua experiência pessoal, ou pelo menos parte dela. No entanto, a falta de aptidão para a biografia que Rosas confessa na introdução de Salazar e o Poder e a afirmação de Pacheco Pereira segundo a qual a obra do presidente do IHC é uma história não propriamente narrativa mas sobretudo problematizante tornam pouco provável a hipótese de Rosas abordar a sua própria vida como objecto de estudo.

domingo, 18 de novembro de 2012

Lénine já nos pôs nas mãos a chave do problema



Operação Mar Verde (Caminhos Romanos, 2012), de António Vassalo, é um álbum de BD que narra, como o título indica, a operação militar portuguesa de ataque a Conakry em 22 de Novembro de 1970. Alpoim Calvão, o estratega e comandante da operação, é o herói do livro. António Vassalo (que se auto-retrata na p. 4) conheceu Alpoim na Guiné em 1964, embora já tivesse concluído o serviço militar aquando da Operação Mar Verde. A reconstituição desta é feita com base nas memórias de Alpoim e nos testemunhos prestados a Vassalo pelos participantes na acção, que o desenhador (na introdução, Vassalo explica ter desejado desde a infância ser um guerreiro do Império como os heróis da História portuguesa, concretizando o sonho na guerra colonial) considera ter sido um claro sucesso. As 28 pranchas a preto e branco dão um tom épico à luta contra o ditador guineense Sekou Touré, que para frustração de Alpoim permaneceria no poder.

O trabalho de António Vassalo constitui uma nova abordagem da guerra de 1961-1974 pela banda desenhada, onde o conflito africano serviu recentemente de inspiração a Cinzas da Revolta (Asa, 2012), com argumento de Miguel Peres e desenho de João Amaral (Jhion). 

sábado, 17 de novembro de 2012

Conserva inabalável a fé nos destinos do clube



O livro Eu Fui Agente da DGS-PIDE (Ecopy, 2011), de Emídio Oliveira, é especialmente valioso pela raridade, entre os testemunhos existentes de indivíduos visados pelo processo de justiça política na transição para a democracia, de depoimentos escritos por antigos funcionários da polícia política. Emídio José Cabrita de Oliveira (1947-) fez parte da DGS entre 1971 e 1974, trabalhando sobretudo no controlo das fronteiras no Aeroporto de Faro, como pretendia. Ingressou na polícia depois de ter cumprido o serviço militar, que terminou mais cedo que o previsto devido a doença, como enfermeiro nos hospitais do Exército na Estrela e em Campolide, onde observou o sofrimento dos feridos vindos de África (de acordo com o relato de Oliveira, essa experiência pouco ou nada teve a ver com o que lhe aconteceu mais tarde).

Oliveira nega ter conhecido ou participado em quaisquer actos de violência e crueldade contra presos políticos, reafirmando a sua inocência. De resto, “muitos de nós, os mais novatos, não estávamos politizados ao ponto de defendermos, em consciência, um regime político-ideológico tipo fascista. Falo por mim que sinceramente, me considerava um funcionário integrado num organismo público que defendia a Nação.” (pp. 107-108) Além do trabalho no aeroporto, onde conheceu gente famosa, Oliveira conta ter desempenhado missões como a segurança de ministros em visita ao Algarve ou a investigação do roubo numa pedreira de explosivos que terão sido usados no atentado da ARA contra postes de alta tensão em 9 de Agosto de 1972.

Além de reproduzir artigos da revista Continuidade e publicar as suas incursões na poesia, o autor narra o que viveu depois dos dias 25 e 26 de Abril de 1974, quando em Faro os agentes da DGS, mal informados sobre o golpe militar e alvo de manifestações de ódio, admitiam ainda continuar a trabalhar para o Estado noutro organismo. A 27, os “pides” são detidos no quartel do Regimento de Infantaria, de onde serão levados para a Cadeia de Faro e, a 3 de Julho, para a Penitenciária de Lisboa. Emídio Oliveira passará cerca de um ano e meio (será libertado em 17-02-76) no estabelecimento prisional da capital, cujo quotidiano relata (neste ponto, as informações de Oliveira podem ser complementadas com as de outro preso, José Luís Pinto de Sá, na obra Conquistadores de Almas). Pelo meio da revolta e das saudades da família que o narrador sente, sucedem-se acontecimentos como o motim de 11 de Agosto de 1974, os piquetes e manifestações junto da prisão, o 28 de Setembro, as exposições dos presos políticos às autoridades militares, o primeiro Natal na Penitenciária, o 11 de Março, a transferência da maioria dos ex-“pides” para Alcoentre e posterior fuga, a publicação da Lei nº 8/75, de 25 de Julho (estabelecendo as penas a cumprir pelos funcionários e informadores da extinta policia política), o receio, a partir de Setembro de 1975, da possível entrada na prisão de grupos armados com o fim de liquidar os detidos, ou o 25 de Novembro, que permitiu a prestação de declarações e saída em liberdade provisória dos antigos membros da DGS. No caso de Oliveira, o processo seria concluído em 1979 com a condenação do autor de Eu Fui Agente da DGS-PIDE a 4 dias de prisão preventiva, já expiada, e a sua reintegração na função pública.

O testemunho de Emídio Oliveira fornece dados relevantes e adiciona uma perspectiva “humana” do fenómeno da justiça política revolucionária, no qual o desejo de punição da PIDE/DGS por parte dos antigos opositores do Estado Novo acabou por colidir com os problemas legais criados pela prisão irregular de milhares de pessoas e a busca da “pacificação” da sociedade portuguesa que emergiu do final do PREC.

sábado, 10 de novembro de 2012

Pão a cozer, menino a ler



Rui Zink (autor de obras publicadas por editoras como Asa, Celta, Europa-América, Dom Quixote, Relógio d’Água, Notícias, Almedina, Porto Editora, Círculo de Leitores, Teorema, Quasi, Planeta ou Teodolito) procura em A Instalação do Medo (Teodolito, 2012) reflectir o “espírito do tempo”, recorrendo a fontes como os jornais e a Internet. Nesta novela (ou romance? Ou peça de teatro? Ou um pouco de tudo?), a linguagem é analisada nos seus componentes essenciais, de forma a enumerar o léxico associado a uma determinada orientação ideológica difundida pelos “agentes do medo” (qualquer corrente política possui, é claro, as suas palavras de estimação). O discurso e os seus efeitos práticos são denunciados por Zink a partir de um registo surreal e por isso mesmo tão realista.

A Instalação do Medo é um livro político (?) de formato prático que nos permite transportá-lo sempre nas nossas malas e gritar passagens em manifestações. Ou então apenas uma exposição do eterno e avassalador poder do medo.

domingo, 4 de novembro de 2012

Tá-se bem, os putos de Belém



A propósito da questão da eventual instrumentalização do desporto, e em especial do futebol, pelo regime de Salazar (à qual Ricardo Serrado regressa num novo livro, O Estado Novo e o Futebol, editado pela Prime Books), merece comentário o capítulo da obra História de Portugal em Datas (Círculo de Leitores, 1994) sobre o período de 1926-1974, assinado por João Paulo Avelãs Nunes. Numa entrada sobre a data de 3 de Dezembro de 1933, o historiador coimbrão escreve:

“Marcando de forma “espectacular” o encerramento do Congresso dos Clubes Desportivos e o esforço realizado pelo Estado Novo no sentido de assegurar a instrumentalização ideológica do fenómeno desportivo, realiza-se em Lisboa, no Terreiro do Paço, uma “parada desportiva” em homenagem ao presidente do Conselho.” (p. 324)

Promovido pelo jornal Os Sports, o Congresso dos Clubes Desportivos, realizado em Lisboa entre 26 de Novembro e 3 de Dezembro de 1933, serviu para as colectividades representadas expressarem a sua insatisfação com as carências aflitivas de estruturas para a prática do desporto e o inexistente apoio do Estado aos clubes, sujeitos a uma elevada carga fiscal. O documento aprovado pelos congressistas reúne vários pedidos dirigidos ao Governo presidido por Salazar. Uma parada dos atletas de clubes de Lisboa e arredores e dos membros dos cursos de ginástica infantil apoiados por Os Sports irá acompanhar a comissão organizadora do Congresso ao Terreiro do Paço, onde os “votos” da reunião serão apresentados ao Presidente do Conselho. Enquanto os desportistas se reúnem na praça, Raul de Oliveira, director de Os Sports, lê o documento no qual são lembradas as funções sociais e educativas do desporto, considerado essencial para a valorização física dos portugueses, ou como se diz então, o “rejuvenescimento físico da raça”. Para desenvolver a sua actividade de carácter patriótico, os clubes necessitavam, no entanto, do apoio estatal, tanto ao nível da regulamentação como da construção de infra-estruturas. Raul de Oliveira propõe medidas como a criação de um organismo governamental que regule o desporto, a formação por uma Escola Superior de Educação Física de técnicos habilitados a difundir as práticas atléticas pelo país e a construção pelo Estado de equipamentos desportivos, nomeadamente um Estádio Nacional em Lisboa. Em resposta, Salazar dirige-se ao microfone para fazer um dos poucos discursos onde aborda o fenómeno desportivo, considerando a educação física importante para a “formação da pessoa humana”, inclusive a nível moral, e lamentando que muitos jovens das cidades, ao invés de se exercitarem em contacto com a Natureza (por exemplo, praticando desportos náuticos no Tejo), passem o tempo nos cafés a discutir questões de “baixa política”. Por fim, Salazar anuncia à multidão que “teremos em breve o Estádio Nacional” (viria a ser inaugurado em 1944), assistindo depois ao desfile dos desportistas (Os Sports, 4 de Dezembro de 1933).

O episódio revela, mais que uma instrumentalização ideológica do desporto português pelo jovem Estado Novo, a busca pelos dirigentes desportivos de uma nova relação com o poder político, do qual pretendem uma maior intervenção, com vista a resolver as múltiplas dificuldades com que os clubes então se debatem. A parada de atletas seria uma prova da força social e popularidade que o desporto já alcançara em Portugal, justificando maior atenção do Estado. Em troca, o desporto oferecia ao regime uma educação física por este controlada que não só melhorasse a saúde e resistência dos portugueses como lhes ensinasse hábitos de disciplina e integração nos princípios do salazarismo. Assim, “A promessa da construção do Estádio Nacional representou uma espécie de aliança entre o Estado Novo e os dirigentes desportivos, com vista à satisfação de interesses mútuos” (SERRADO, Ricardo, SERRA, Pedro, História do Futebol Português, Uma análise social e cultural, vol. I, Das Origens ao 25 de Abril, Lisboa, Prime Books, 2010, p. 189).

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Calai-vos ou vai tudo raso!



Gabriel Mithá Ribeiro, autor de O Ensino da História (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2012), baseia-se na sua experiência como professor de História no ensino básico e secundário (da qual dá vários exemplos no livro, como a sua atitude impiedosa perante a indisciplina dos alunos) para criticar as orientações que os responsáveis do Ministério da Educação têm enviado às escolas. Opositor da corrente pedagógica “progressista” predominante nas últimas décadas, Mithá Ribeiro acredita que “o sistema tem de se tornar tendencial e essencialmente conservador” (p. 98), ou seja, a escola deve transmitir “saberes académicos e científicos sedimentados ao longo da história civilizacional do Ocidente” (p. 36). O professor insurge-se contra o “ensino centrado no aluno” criado pelas “Ciências da Educação” (entre aspas no original), que, dedicando-se apenas aos aspectos didácticos e pedagógicos, falha no essencial, a divulgação do conhecimento. 

Em O Ensino da História e outros livros, Gabriel Mithá Ribeiro reage (trata-se, exactamente, de um “reaccionário”) à prática e pensamento educativos desenvolvidos após o 25 de Abril num contexto de ruptura com aquilo que teria marcado a escola do Estado Novo: a autoridade inflexível e opressora do professor, as aulas meramente expositivas, a valorização excessiva da memorização, a apologia do colonialismo, a diabolização da I República, as sínteses historiográficas sem fontes nem qualquer apelo à iniciativa do aluno presentes em compêndios como os de António Gonçalves Mattoso, o isolamento do ensino em relação à sociedade da qual provêm os estudantes, o trabalho apenas individual, etc. É curioso verificar a quase simetria entre O Ensino da História e Um Rumo para a Educação (Editorial República, 1974), de Vitorino Magalhães Godinho, ministro da Educação e Cultura no II e III Governos Provisórios. Enquanto Godinho se preocupava em abrir a escola ao exterior e promover a ligação com a comunidade, Mithá Ribeiro dá a um capítulo o título “Fechar a porta da sala de aula e o portão da escola” (p. 32). As ideias dos autores sobre o modelo das aulas e a actividade dos alunos também são exactamente opostas.

Sem manifestar saudosismos, Gabriel Mithá Ribeiro pensa que os pedagogos e governantes da democracia levaram a educação portuguesa de um extremo para o outro, descurando a necessidade de equilíbrio. Numa corrente adversária, encontram-se estudiosos como António Teodoro, autor do artigo “Uma escola democrática, inclusiva e exigente” (Público, 22-10-2012, p. 47), que se baseia na investigação das Ciências da Educação (agora sem aspas) para apontar problemas actuais do ensino como “um curriculum escolar ainda organizado em termos de conhecimento disciplinar” e “uma formação de professores centrada num conhecimento disciplinar que subalterniza a construção de saberes práticos”.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Em Portugal qualquer coisa falhou



Um Risco na Areia (Avante, 2000), romance de Manuel Tiago (pseudónimo de Álvaro Cunhal), evoca o ambiente de Setembro de 1974, nomeadamente a oposição do PCP à manifestação da “maioria silenciosa” marcada para dia 28 desse mês (curiosamente, no romance nunca é referido pelo narrador ou pelas personagens o nome de Spínola, designado por “o presidente”, ou de qualquer outro político da época). A partir do centro de trabalho de uma freguesia de Lisboa, é mostrada a actividade incessante dos militantes comunistas, assim como os confrontos físicos entre jovens do PCP e do MRPP (“os emeérres”) e os ataques ao Partido de grupos “fascistas”, que multiplicam agressões e provocações nas vésperas do 28 de Setembro. Literariamente, Um Risco na Areia não possui grande valor, já que, neste romance, Cunhal acaba por dar mais espaço à exposição das suas posições políticas que ao desenvolvimento das personagens, de quem ficamos a saber pouco mais que os nomes.

A bibliografia da obra de Raquel Varela A História do PCP na Revolução dos Cravos (Bertrand, 2011) não inclui o título de Um Risco na Areia, o que se revela uma lacuna (sem pôr em causa a qualidade da tese da autora), tendo em conta o carácter quer de testemunho quer de propaganda que Cunhal fornece à sua reconstituição dos eventos de Setembro de 1974. O romance aponta como uma das actividades mais importantes dos militantes lisboetas o acompanhamento das lutas nas fábricas, onde os operários revoltados constituirão um campo de recrutamento para o PCP. Perante as situações de sabotagem económica, ligadas à preparação do alegado golpe de direita, representantes dos trabalhadores de uma empresa pedem conselho a um dirigente do PCP, recebendo como resposta “pronta e sem hesitar”: “Tomem conta da fábrica e mantenham-na em laboração” (p. 23), solução depois aprovada em plenário da empresa. A autogestão e o controlo operário teriam assim sido incentivados em 1974 pelo partido de Álvaro Cunhal, cuja versão colide com o livro de Raquel Varela (segundo a historiadora, os comunistas privilegiavam então a intervenção estatal em empresas alvo de sabotagem económica, dissuadindo as iniciativas operárias de ocupação das fábricas e auto-organização).

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Um safanão a tempo nestes rapazes



No suplemento Atual do Expresso de 22 de Setembro, Pedro Mexia assina uma crítica ao novo livro de Mário de Carvalho, O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel (Porto Editora, 2012). Apreciador da escrita de Carvalho, Mexia atribui quatro estrelas (mantém-se polémica a classificação da qualidade dos livros pela crítica com um valor numérico, já abandonada pela revista Ler) às duas novelas reunidas no volume. No entanto, o recenseador poderia ter evitado revelar, no seu resumo das narrativas, os finais de cada uma delas. Quando encontrei a crítica, já tinha acabado a leitura de O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel, mas o que terá acontecido àqueles que se interessam pela obra de Carvalho e contactaram com a prosa de Mexia antes de comprarem e lerem o livro recenseado? A opção dispensável de Mexia prejudicou os leitores desprevenidos. Se o objecto de análise fosse um filme, dificilmente o crítico revelaria o desfecho do argumento e, caso fosse necessário, pelo menos recorreria à expressão “Spoiler” antes de abordar o assunto. Nas referidas novelas de Mário de Carvalho, a conclusão não é algo do género “e viveram felizes para sempre”, beneficiando da capacidade de chocar ou surpreender que o autor tão bem sabe manejar. Se quiserem saber como terminam O Varandim e Ocaso em Carvangel, leiam a obra, não perguntem a Pedro Mexia.

sábado, 8 de setembro de 2012

Hoje é dia de alto risco



Na revista Ler deste mês, José Mário Silva assina uma crónica com o título “São Pedro do Sul” (p. 41), onde desfia as recordações que lhe restam das férias passadas com os avós paternos naquela estância termal, quando Silva tinha “oito ou nove anos” (ou seja, em 1980/81). Sem nunca ter voltado desde então às termas de S. Pedro do Sul, o autor lembra-se, entre outras coisas, do Hotel Vouga e dos outros hóspedes deste (“deviam andar pelos 50, 60 anos, e pareciam-me muito velhos”), das tardes longas, do silêncio, das leituras que fazia (Stevenson, Júlio Verne, Astérix, Michel Vaillant), “do jardim que tinha no centro uma taça circular – cheia de água borbulhante e vapores – de que eu me aproximava a medo” ou dos passeios nas margens do rio.

A crónica de José Mário Silva aborda uma realidade que me é muito familiar, já que passei duas semanas de Agosto em S. Pedro do Sul todos os anos entre 1992 e 2005 (com as excepções de 1993 e 2000). Além do Hotel Vouga, existiam nas termas unidades hoteleiras como o Hotel do Parque, o Hotel Lisboa, a Pensão Avenida e o Inatel reaberto em 1997 após obras. Silva é “incapaz de recordar o edifício onde se faziam os tratamentos”, referindo-se ao velho Balneário Rainha D. Amélia, mas em 1992 já existia um novo edifício (que depois recebeu o nome de D. Afonso Henriques) ao qual os utentes se deslocavam para os tratamentos. A taça circular atrás citada continuava a espalhar um “cheiro fortíssimo, como de enxofre”. Quanto ao perfil etário predominante dos aquistas, mantinha-se basicamente o mesmo do início dos anos 80, por mais que a publicidade das termas estivesse cheia de fotografias de jovens sorridentes. Lembro-me de alguns dos livros que li nas tardes enormes de Agosto (Capitães da Areia, Os Maias, Glória, Se Isto É um Homem, Homens-Aranhas, Morte no Estádio, O Velho que Lia Romances de Amor, etc.), mas a verdade é que não me apetece falar muito sobre as termas sampedrenses. Embora nada tenha contra S. Pedro do Sul, foram Agostos a mais.