As listas de funcionários da PIDE/DGS (como tal abrangidos pela Lei nº 8/75) incluem, além de agentes, chefes de brigada e outros responsáveis pela investigação e combate aos crimes políticos, centenas e centenas de membros do pessoal auxiliar e administrativo, como escriturários, dactilógrafos, oficiais, chefes de secção, contínuos, serventes, auxiliares de limpeza, etc. Múltiplas perguntas surgem acerca desta multidão de trabalhadores necessários ao funcionamento da polícia política. Quem eram (ou são) estas pessoas? Pensariam que trabalhavam na PIDE como noutro sítio qualquer? Porque se teriam empregado naquele organismo repressivo? Poderiam alegar desconhecimento da violência sobre os presos políticos? Teriam contacto com estes? Como se relacionavam com os dirigentes e agentes da polícia? Dariam garantias de apoiar a ditadura ou pelo menos serem-lhe indiferentes? É possível seguir o seu percurso através da segunda série do Diário do Governo? Que clubes de futebol apoiariam? Iriam ao cinema? Que pensariam durante os últimos anos do Estado Novo? Tentaram ir trabalhar na manhã de 25 de Abril de 1974? Como reagiram à dissolução da polícia onde trabalhavam (no caso dos funcionários residentes em Angola e Moçambique, é possível que muitos tenham ido para a África do Sul)? Além de terem processos na Comissão de Extinção, sofreriam de um estigma após a queda da ditadura? Ocultaram esse passo do seu currículo? Inscreveram-se em partidos de esquerda? A que transportes recorria a auxiliar de limpeza Laurinda de Jesus David para se deslocar do Bairro Dr. Mário Madeira (Pontinha) até à Rua António Maria Cardoso?
Encontrar algo útil no meio da tralha é parte essencial do trabalho de um historiador.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
domingo, 10 de abril de 2011
A serpente pode mudar de pele, mas é sempre uma serpente
De acordo com os Relatórios e Contas do Sporting Clube de Portugal, verificou-se na primeira metade da década de 80 um grande aumento do número de sócios da colectividade de Alvalade. Os 44 079 associados contabilizados em 1 de Julho de 1981 passaram a 55 623 um ano mais tarde. No final da época de 1983/84, existiam 106 367 sócios do SCP, enquanto em 30 de Junho de 1985 132 489 pessoas podiam exibir o cartão de filiado do clube (ou seja, a massa associativa do Sporting triplicou num período de quatro anos). O crescimento do número de filiados traduziu-se nas receitas associativas, contabilizadas em 71 480 398$20 na época de 1981/82 e em 176 087 315$40 três anos depois.
Serviste a Pátria, ela deu-te um coice
O número de Abril da revista Premiere procura responder à chegada da concorrente Total Film (e do iminente aparecimento da versão portuguesa da Empire), anunciando o director editorial Jorge Paixão da Costa uma nova vida para a publicação fundada em 1999, descontinuada em 2007 e relançada em 2008. A saída para a Total Film de vários colaboradores levou a Premiere a recorrer a nomes com passagens anteriores pela revista (Basílio Martins, Inês Gens Mendes, Rui Brazuna, etc.) e a adoptar um novo chefe de redacção, Jorge Pinto (também há um Jorge Pinto na Total Film; o crítico colabora com as duas revistas ou trata-se de um caso de homonímia?). Procurou-se também recuperar algumas coisas da primeira série da Premiere, como as colunas de Criswell e as “cenas quentes” (existentes na Total com outros nomes). A estragar o conjunto, verificam-se falhas de revisão e uma adaptação incompleta ao Acordo Ortográfico. Assim, Jodie Foster tanto é uma “actriz” (p. 54) como uma “atriz” (p. 55).
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Na guerra com razão anda Deus por capitão
Os resultados das equipas portuguesas na primeira mão dos quartos-de-final da Liga Europa foram bastante bons. Benfica e FC Porto golearam e estão praticamente apurados para as meias-finais, enquanto o Sporting de Braga, após o empate a uma bola em Kiev, tem condições para voltar a brilhar em casa. Os bracarenses continuam a sonhar, ao mesmo tempo que parece óbvio que, para erguer o troféu, FCP e SLB terão que passar por cima um do outro. Recorde-se que só em 2002/03, na então Taça UEFA, duas equipas portuguesas chegaram às meias-finais da mesma competição europeia.
terça-feira, 5 de abril de 2011
Com molas Antunes, todos ficamos imunes
Esteiro, Nº 1, Março de 2011
Luciano Zaga, “A questão fundamental”
“Numa esplanada à beira-rio, ele está absorto. Ela, sorvido o café, encara-o com estranheza.
— Estás hoje muito calado.
— Sabes, estou a pensar na vida.
— Então? (…)
— A questão fundamental, o cabouco sobre que assentam todos os problemas da vida, é a divisão entre os que acreditam que a origem de tudo, do universo e do mundo foi uma ideia, um ente superior desconhecido e que depois identificaram com o Sol a que chamaram deus, da palavra “div”, luz, em sânscrito; e aqueles que sabem que a matéria sempre existiu, não foi criada por ninguém, e está em contínuo processo de transformação de vida e morte e vida, em espiral ascendente, desde a rocha inanimada ao homem e à mulher sapiens sapiens, à maior maravilha da natureza: o cérebro humano. (…)
Se eu, erradamente, acredito na primeira posição, acredito em mitos, ilusões, homens salvadores da humanidade, submeto-me ao destino, à aceitação da exploração, voto nos partidos da direita, clara ou disfarçada, sou enganado pelos que se dizem meus amigos, sem aferir que interesses servem, sou lançado para a guerra para morrer e matar por interesses que não são os meus. (…)
E eu, pelo contrário, sei firmemente que não há um destino que me aprisione o futuro, que não há seres superiores aos homens. Não indo atrás de qualquer carismático demagogo, então sentes-te irmão, igual aos outros homens, sejam eles de que credo ou cor forem, e sabes que só a solidariedade entre todos os trabalhadores, intelectuais ou manuais, professores ou operários, resolverá os dramas da humanidade. Voto no partido fraternal, que luta pela humanização do homem, em todo o mundo. Não aceito a exploração. Não haverá guerra, nem doenças sociais, não haverá fome e miséria.
— Cada homem realiza a sua felicidade contribuindo para a felicidade dos outros.
— E todos se erguerão acima da condição animal em que nos encontramos… (…)” (p. 7)
domingo, 3 de abril de 2011
Foi mandado para casa sob o peso da vergonha
O livro oficial (Avante, 2001) do XVI Congresso do PCP, realizado em Lisboa (no Pavilhão Atlântico) entre 8 e 10 de Dezembro de 2000, sob o lema “Democracia e Socialismo – Um Projecto para o Século XXI”, inclui a transcrição da intervenção de um membro do Comité Central comunista, Carlos Rabaçal, sobre “Política desportiva”. Fazendo um resumo da situação do desporto em Portugal, que considera desastrosa, Rabaçal afirma que “desde que os comunistas deixaram de deter a responsabilidade governativa da pasta do desporto, mais nada de novo aconteceu no panorama desportivo português, na perspectiva da democratização (…). E isto aconteceu já lá vão 25 anos.” (p. 56) O governo socialista de António Guterres limitava-se a associar-se aos eventos mediáticos do futebol profissional, ignorando as necessidades desportivas da população, satisfeitas apenas pelas autarquias e pelos clubes locais. Tal como noutros sectores do país, só “uma autêntica revolução”, com o PCP no Governo, poderia trazer a mudança ao desporto (p. 57).
Mais adiante, Mário Nogueira refere-se brevemente à falta de condições nas escolas, onde “os espaços para a prática desportiva, incluindo a construção de alguns pavilhões gimnodesportivos com verbas já previstas em PIDDAC, continuam a aguardar por melhores dias, ou, talvez, por próximas eleições” (p. 72). O desporto é também um dos temas abordados na Resolução Política aprovada no congresso, onde a organização do Euro 2004 é encarada com cautelas, devendo ser fiscalizada. Os comunistas pensam que “o desporto deve ser entendido como um importante factor de melhoria da qualidade de vida das populações, de resposta às necessidades de crescimento das crianças e jovens, de integração social e formação completa da juventude, de luta contra as consequências da sedentarização na vida dos trabalhadores e dos adultos em geral, de resposta a problemas específicos dos deficientes e dos idosos, e na luta contra a desintegração e exclusão juvenil e toxicodependência”. (p. 297)
Como curiosidade, regista-se a presença na Presidência do XVI Congresso do professor de Educação Física Carlos Manuel Dias Costa, dirigente da Federação Portuguesa de Desporto para Deficientes. Um dos delegados que usaram da palavra durante os trabalhos foi Domingos Estanislau, presidente do Futebol Benfica.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Mais parece um travesti
O pior da crise foi ter feito com que o vocabulário ligado à economia (juros, dívida, rating, agências, FEEF, leilão, mercados, Obrigações do Tesouro, etc.) dominasse os noticiários portugueses. Embora eu saiba que sem o conhecimento da economia não é possível compreender nenhum período histórico (como agora se comprova), tudo o que diga respeito a dinheiro e não seja imediatamente palpável me despertou sempre desinteresse. A linguagem económica, associada à crença nos mecanismos financeiros, era uma espécie de latim que só especialistas formados em seminários, ou melhor, em FEs, conheciam na sua plenitude. Sacerdotes e sacerdotisas como a minha irmã reuniam-se em templos (Bolsa, Banco de Portugal, Diário Económico, etc.) para adorar o seu deus e pronunciar na língua oficial do culto os sacramentos que asseguravam, em nome da comunidade, o apaziguamento das entidades divinas. Fora do corpo clerical, as pessoas só tinham uma vaga ideia dos princípios da fé, consultando os sacerdotes em períodos de dificuldades para tentarem compreender os misteriosos desígnios de uma Economia distante mas aparentemente todo-poderosa. Agora, um conhecimento mínimo das Sagradas Escrituras, que começam a ser traduzidas para as línguas profanas, é essencial para perceber o que se passa à nossa volta, até porque parece que um qualquer deus maligno soltou sobre nós a sua ira, sem que os sacerdotes possam fazer algo para aplacar a sede de sangue da divindade enfurecida.
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