A transição, no canal Q, de Show Markl para Uma Macacada Qualquer não pareceu trazer grandes mudanças, uma vez que se manteve a fórmula: Nuno Markl + os outros três gajos (Francisco Martiniano Palma, Jorge Vaz Gomes e João Pedro Barata) + convidados + música. Na verdade, apesar da questionável secção de música pimba, Uma Macacada Qualquer beneficiou de dinâmica própria, em resultado da inserção de Markl no universo da Rádio Calipso, dominado pelas personagens Almeno Menano (Palma), Vilela Henriques (Barata) e Vítor do Penedo (Palma), além do apagado Dário (Gomes). Os problemas de matemática da Arruaça Musical, os diálogos surreais entre Markl e Vítor e os ataques de fúria de Almeno, resultantes na destruição de adereços e na agressão aos seus subordinados, tornaram-se imagens de marca do programa, cujo sucesso levou a que a vertente de talk-show presente em Uma Macacada Qualquer fosse deixada para trás com a adopção de um formato mais curto, a sitcom Rádio Calipso. Depois de um primeiro episódio ainda incerto, a série ganhou o ritmo correcto. Se as histórias dos episódios nem sempre são um prodígio de inteligência, o carisma das personagens e a diversão dos actores com aquilo que fazem garantem que Rádio Calipso, pelo menos por enquanto, funcione às mil maravilhas.
Encontrar algo útil no meio da tralha é parte essencial do trabalho de um historiador.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Não há mestres da táctica
A cronologia Salazar: Biografia da Ditadura (Avante, 1999), de Pedro Ramos de Almeida, não constitui exactamente uma obra científica, adoptando uma perspectiva marxista de crítica e denúncia do Estado Novo, mas reúne numerosos elementos sobre a vida e o regime de Salazar. O índice onomástico assinala uma referência ao escritor inglês George Orwell, presente numa das entradas de 1955, quando é publicada a primeira edição portuguesa de 1984:
“Novembro: A revista mensal da LP, Legião em Marcha, também consagra no seu número deste mês o romance 1984, de George Orwell. É mesmo o seu director, João Ameal, que escreve: “ (…) Georges (sic) Orwell escreveu este impressionante 1984, lido por mim há quatro anos (…) e agora vertido na nossa língua por Paulo de Santa-Rita e editado pela Ulisseia. (…) Com impiedosa lógica, traça o minucioso panorama de uma sociedade caída em inumana escravatura, sujeita a um regime opressivo (…). No fundo, a sociedade tal qual a organizaria o comunismo integral se viesse a exercer o seu domínio em todo o continente europeu. (…)” Uma revista da LP que antecipa as críticas e os gostos de várias correntes anticomunistas da actualidade…” (p. 521)
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Tenho a cultura média de um europeu
Uma particularidade da língua portuguesa é a utilização frequente dos artigos a/o antes dos nomes de pessoas, num sinal de informalidade do discurso ou de familiaridade com aqueles a que se alude. Em dadas circunstâncias, pode também indicar um certo desprezo pelos indivíduos em questão, sobretudo quando se fala de políticos ou outras celebridades. De uma forma geral (nos casos de crianças e animais, o seu uso é mais comum), a linguagem escrita evita essa forma de tratamento, nomeadamente em textos científicos ou jornalísticos. Os órgãos noticiosos, na imprensa, na Internet ou noutros meios, não podem referir-se às pessoas que citam como “o” ou “a” Fulano/a. Quando tal acontece, deve-se a lapso (ou não?) de quem escreve ou revê o texto informativo. No entanto, esta situação é bastante comum, como se pode ver nos seguintes exemplos:
“O Governo de Obama pediu ainda ao regime do Assad (…)” www.publico.pt , 28-08-11
“Recordamos que este é o segundo casamento da cineasta (Sofia Coppola), que esteve unida em matrimónio de 1999 a 2003 com o Spike Jonze (…)” www.c7nema.net, 28-08-11
“A ausência de Rui Pedro foi dada pelas 18.30 quando o Manuel Mendonça foi informado que o filho faltou à explicação.” Diário de Notícias, 30-08-11
“Frederico Pombares (…) escreveu stand-up para Marco Horácio e o Bruno Nogueira (…).” Visão, 06-10-11
“O artigo (do Avante!), assinado pelo Jorge Messias (…).” Público, 04-11-11
“A Académica chega ao golo aos 63 minutos, com o Marinho a surgir no momento certo (…)” desporto.sapo.pt, 19-11-11
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
O filme está a ficar demasiado pesado
Não se sabe quem tem medo de baladas, mas a “Edição Exclusiva” do novo álbum de José Cid, vendida nas lojas Fnac, inclui dois CD. Os “extras” que acompanham as 14 baladas do primeiro disco encontram-se num CD 2 com nove faixas, entre as quais estão novas versões de O Melhor Tempo da Minha Vida e Mais 1 Dia. A fechar, existe Medley – Canções de sempre, ou seja, 30 minutos (!) durante os quais, apenas com voz e piano, Cid faz ininterruptamente uma retrospectiva da sua obra (ou de parte dela), relembrando os temas A Nu, Romântico Mas Não Trôpego, Glória, Glória, Aleluia, Em Casablanca, Sonhador, Junto à Lareira, Na Cabana Junto à Praia e muitos outros. Concluída com uma pequena surpresa, esta longa faixa delicia qualquer cidéfilo.
domingo, 13 de novembro de 2011
A sigla sinistra da augusta História da Casa Lusitana
O número de Outubro
da revista Dragões, editada pelo FC Porto, inclui uma entrevista a Carlos Tê,
poeta, compositor e adepto do clube desde os tempos áridos de No Domingo Fui às
Antas. A pedido da publicação, Tê elaborou um “top eleven” de letras da sua
autoria, na origem de canções de Rui Veloso ou dos Clã, no qual colocou tanto
grandes sucessos como temas que passaram relativamente despercebidos nos
respectivos álbuns. Para as centenas de portugueses que não lêem a Dragões,
fica aqui a lista:
1. A Gente Não Lê
2. País do Gelo
3. Porto Sentido
4. Conceição
5. Regras da
Sensatez
6. Problema de
Expressão
7. Bairro do
Oriente
8. Guardador de Margens
9. Presépio de Lata
10. GTI
11. Recado a Rosana
Arquete
Da mesma forma,
Carlos Tê definiu um “onze ideal” do FC Porto, composto por Vítor Baía, Paulo
Ferreira, Ricardo Carvalho, Jorge Costa, Branco, André, Jaime Pacheco, Pavão,
Gomes, Hernâni e Hulk.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Há uma capitulação moral da população
Como único deputado
da UDP eleito nas legislativas de 1976, Acácio Barreiros multiplicou-se em
intervenções no Parlamento, celebrizando-se pelo bigode (embora mais comum
nessa época) e pela violência dos seus discursos. Além de criticar a direita e
os primeiros governos constitucionais, Barreiros tinha como alvo privilegiado a
bancada do PCP, por si denominado “grupo burguês contra-revolucionário de
Cunhal”.
A 30 de Julho de
1976, Barreiros leu na Assembleia da República as conclusões da última reunião
plenária do Comité Central do Partido Comunista Português (Reconstruído),
organização através da qual os maoístas pretendiam compensar o revisionismo em
que o PCP original teria caído. O Diário da Assembleia da República
(reproduzido em Intervenções
Parlamentares de Acácio Barreiros, Lisboa, Assembleia da República, 2007,
pp. 46-52) registou o discurso do deputado da UDP e os comentários feitos por
alguns dos seus colegas do PCP. Ouvindo os ataques de Barreiros, Jerónimo de
Sousa, Francisco Miguel, Aboim Inglês e Vital Moreira fizeram apartes como
“Nunca te vi à frente da luta dos trabalhadores”, “Onde é que passaste a
vida?”, “Não tens nada a ver com a classe operária”, “Cala-te, provocador”, “És
um agente da burguesia”, “És um aldrabão, pá!”, “O homem está nervoso!” ou “És
a vergonha do bacharelato”. Vasco da Gama Fernandes, então presidente da AR,
teve de apelar à contenção dos comunistas, pedindo “compreensão e um pouco de
silêncio”. Nem sempre Fernandes se mostrava tolerante para com a oratória de
Acácio Barreiros, repreendido noutra ocasião pelo presidente da AR por ter
chamado “gangster” ao embaixador dos Estados Unidos, Frank Carlucci.
sábado, 5 de novembro de 2011
O pepino sempre em pé
Na editora Sete
Caminhos (não tenho notícia de que esta chancela tenha editado algum livro
depois de 2009), Fernando Correia coordenou a publicação de várias obras sobre
a história do desporto em Portugal e lançou livros da sua autoria, como as
biografias de Matateu e Moniz Pereira ou ainda Pontapé na Bola – Histórias do
futebol português (2006). Trata-se de um conjunto de pequenos textos sobre
episódios e figuras do desporto-rei, pobre a nível de escrita e com erros de
revisão (“O “Papa”, como alguns lhe chamam ainda (…) teve a capacidade e a
visão futura de relançar a mitologia do dragão, povo que outrora terá habitado
a citânia de Briteiros, na região Norte”, p. 125). O aspecto mais interessante
da obra é a transcrição de fontes, embora a sua identificação não seja muito
precisa, o que se lamenta sobretudo no caso das “memórias” citadas do jogador
José Manuel Martins (pp. 71-73).
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