Encontrar algo útil no meio da tralha é parte essencial do trabalho de um historiador.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Nós queremos saber onde param os violinos de Chopin

Distantes que estão os tempos de sexo, poder e riqueza dos Bórgia (a série de Neil Jordan em exibição no AXN é fascinante), o cargo de Papa é, para os cardeais de Habemus Papam, de Nanni Moretti, uma responsabilidade descomunal que nenhum deles quer assumir. Quando, depois de empates entre os favoritos do conclave, o trono de S. Pedro é relegado no cardeal Melville (Michel Piccoli), este não se sente com qualidades para o pontificado e entra em pânico, recusando apresentar-se aos fiéis. Apesar da originalidade desta premissa e do enorme talento de Piccoli, fica uma certa sensação de que Moretti não foi tão longe como poderia, até porque a personagem que o cineasta interpreta, um psicanalista ateu, pouco contacta com o Papa e dedica-se a animar os cardeais entediados (detesto voleibol). Menos que uma sátira, assiste-se a uma dessacralização do Vaticano (e também da psicanálise e dos media), cujos responsáveis são homens como quaisquer outros, enquanto o novo Papa enfrenta incógnito os seus receios e tenta decidir o que fazer. No final, Moretti finta com classe as expectativas de personagens e espectadores, deixando um sabor de amargura.

O que terá sentido Joseph Ratzinger naquele dia de 2005?

domingo, 18 de dezembro de 2011

A senhora lava a Coina todos os dias?

Em 1954, a revista cultural Cidade Nova, de Coimbra, editou um suplemento ao seu número 4-5 com o título “A Cidade Nova defende a Índia Portuguesa”. O volume constitui uma compilação de textos em resposta às pretensões da União Indiana de integrar no seu território Goa, Damão e Diu, hipótese que o Governo português recusa admitir, tornando previsível a resolução do conflito por via militar, como veio a acontecer há 50 anos. Os autores que colaboram com a Cidade Nova, vários dos quais se assumem como monárquicos, colocam a possibilidade de um confronto militar, mas, longe de o rejeitarem, apontam-no como preferível a qualquer cedência perante o primeiro-ministro indiano Nehru. Afinal, Goa pertence a Portugal e “os povos não são livres de perder pedaços da sua própria carne” (p. 317).

Dois dos participantes no volume são Sophia de Mello Breyner Andresen (autora do poema “Caminho da Índia”) e Francisco de Sousa Tavares. Este último, apesar das suas divergências com o salazarismo, coloca a questão da Índia no plano dos interesses nacionais, que o Governo defende com a sua posição intransigente, merecendo assim um “apoio sincero, entusiástico e de voluntário sacrifício” (p. 332) por parte dos monárquicos portugueses. Posição idêntica é defendida por Luís Filipe Demony (presidente da Câmara Municipal de Loures quando ocorre o 25 de Abril), dirigente da organização “Unidade Tradicionalista”, o qual se serve de versos de Os Lusíadas para apelar a novos feitos gloriosos na “nova e grande aventura da Índia” (p. 339).

Perante a ameaça à integridade nacional, o discurso do suplemento da Cidade Nova é claramente belicista, incluindo o insólito texto “Viva a Guerra”, assinado por “Azinhal Abelho”, no qual se encontram aforismos como “A guerra não é a morte, mas a vitória do homem sobre a morte” ou “A guerra é como o fogo – purifica” (pp. 311-313). A hipótese de uma “defesa simbólica” de Goa que se limitasse a proteger a honra nacional apesar da derrota é atacada por Carlos Amado, para quem a história portuguesa é feita de “uma série ininterrupta de vitórias sobre inimigos mais numerosos e quase sempre de maior poder bélico” (p. 317). Resistir até ao fim seria a única opção, até porque, como lembra Carlos Eduardo de Soveral, a atitude portuguesa em Goa, Damão e Diu mostrará “o que estaremos decididos a fazer se for a nossa soberania atacada noutro ponto” (p. 319). Para o mesmo autor, “Chegou a hora da Consagração, ou do contrário dela, o que Deus não permita.” (p. 320)

sábado, 17 de dezembro de 2011

Venham cá abaixo e tragam os pássaros

Se o que preocupa José do Carmo Francisco no livro de Ricardo Serrado Futebol – A Magia Para Além do Jogo (Zebra, 2011) é a ausência de referências ao Sporting, pode encontrar no primeiro volume de História do Futebol Português (Prime Books, 2010) textos extensos de Serrado sobre os Cinco Violinos e a conquista da Taça das Taças pelo SCP. Quanto aos erros de revisão em Futebol…, de facto existem, mas é bom lembrar que a obra Fernando Mamede, O Recordista (Sete Caminhos, 2004), de Jorge Vicente, cuja revisão foi feita por José do Carmo Francisco, inclui numerosas gralhas.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Se queres ver o teu marido morto, dá-lhe couves em Agosto

Que eu saiba, nunca Mário Soares manifestou especial interesse por futebol ou uma ligação afectiva a determinado clube. Também não há notícia de que o Bochechas tenha praticado qualquer modalidade desportiva nos seus tempos livres, antes de começar, nos anos 80, a andar de bicicleta por conselho médico. No entanto, Soares deslocou-se várias vezes, como primeiro-ministro e Presidente da República, aos estádios, a convite dos dirigentes dos grandes clubes, desejosos de manter boas relações com o Estado. Da mesma forma, teve todo o gosto em condecorar os heróis nacionais Eusébio, Carlos Lopes e Rosa Mota e elogiar outros desportistas de destaque. Foi ainda Soares que tentou convencer Paulo Futre a dar o exemplo e abandonar Madrid para cumprir o serviço militar obrigatório, mas a resistência do futebolista levou o Presidente a obter para o montijense um estatuto especial de atleta de alta competição que livrou Futre da tropa, pelo menos temporariamente.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Viatura conduzida por um profissional

A historiadora Irene Flunser Pimentel disponibiliza aqui a versão portuguesa da polémica comunicação que fez num colóquio em Londres no passado 25 de Novembro. Os antigos “pides” e informadores foram, de facto, na sua maioria processados e julgados, mas condenados geralmente a penas leves já expiadas durante a prisão preventiva. Apesar dos protestos da imprensa de esquerda, as sentenças dos Tribunais Militares Territoriais foram brandas para com os alvos da justiça política na transição para a democracia. Se deveria ter acontecido assim, é uma questão para debate.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Ou nós os esmagamos a eles, ou eles nos esmagam a nós

O número deste mês da revista Os Meus Livros contém pelo menos duas falhas nos textos. Ao contrário do que se afirma na p. 34 (“Nascido na Alemanha Heerman von Kripahl, é (…)”), o parto de Herman José, autor de Rebeubéu, Pardais ao Ninho, decorreu na Maternidade Bensaúde, em Lisboa. Da mesma forma, na recensão de O Caminho dos Presidentes da República (p. 77), o período atribuído ao mandato presidencial de António de Spínola (“30 de Setembro de 1974 a 27 de Junho de 1976”) corresponde na verdade ao seu sucessor Francisco Costa Gomes.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Aquela mesa é tudo porco

A transição, no canal Q, de Show Markl para Uma Macacada Qualquer não pareceu trazer grandes mudanças, uma vez que se manteve a fórmula: Nuno Markl + os outros três gajos (Francisco Martiniano Palma, Jorge Vaz Gomes e João Pedro Barata) + convidados + música. Na verdade, apesar da questionável secção de música pimba, Uma Macacada Qualquer beneficiou de dinâmica própria, em resultado da inserção de Markl no universo da Rádio Calipso, dominado pelas personagens Almeno Menano (Palma), Vilela Henriques (Barata) e Vítor do Penedo (Palma), além do apagado Dário (Gomes). Os problemas de matemática da Arruaça Musical, os diálogos surreais entre Markl e Vítor e os ataques de fúria de Almeno, resultantes na destruição de adereços e na agressão aos seus subordinados, tornaram-se imagens de marca do programa, cujo sucesso levou a que a vertente de talk-show presente em Uma Macacada Qualquer fosse deixada para trás com a adopção de um formato mais curto, a sitcom Rádio Calipso. Depois de um primeiro episódio ainda incerto, a série ganhou o ritmo correcto. Se as histórias dos episódios nem sempre são um prodígio de inteligência, o carisma das personagens e a diversão dos actores com aquilo que fazem garantem que Rádio Calipso, pelo menos por enquanto, funcione às mil maravilhas.