Encontrar algo útil no meio da tralha é parte essencial do trabalho de um historiador.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Para esquecer você tem experiência

Lourenço Marques Guardian, 30 de Janeiro de 1949

“Aviso

Tendo chegado ao conhecimento do Comando do Corpo de Polícia Civil que a Comissão Central da Candidatura do General Norton de Matos fez distribuir convites para uma sessão de propaganda eleitoral, que pretendia levar a efeito na manhã do próximo dia 31, no terreno situado na esquina da Avenida da República com a General Machado, antes mesmo de o comunicar à autoridade competente, o que só fez em 28 do corrente, dá-se por esta forma conhecimento público de que o mesmo Comando não autorizou a sua realização, em virtude do local não satisfazer às condições expressas no seu Edital de 12 de Janeiro do corrente ano.
Comando do Corpo de Polícia Civil da Colónia de Moçambique, em Lourenço Marques, 29 de Janeiro de 1949. – O Comandante, Carlos Alberto Machado da Silva.” (p. 2)

sexta-feira, 27 de abril de 2012

A UDP que pague a crise

Lourenço Marques Guardian, 15 de Janeiro de 1949

“A Comissão Administrativa da Federação Portuguesa de Futebol comunicou a todas as associações distritais e clubes que os campos de futebol não podem ser cedidos para reuniões políticas.” (p. 4)

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Não precisava de bolsos porque não tinha dinheiro


O livro Clube de Futebol “Os Belenenses”, 90 Anos de História (Âncora, 2009), de José Ceitil, complementa obras de autores como Acácio Rosa, Homero Serpa e Ana Linheiro no registo da história do “Belém”. José Ceitil enumera os altos e baixos do percurso belenense ano a ano, traça perfis das principais figuras do CFB, recolhe depoimentos de ex-presidentes e atletas e conversa com “pastéis” famosos (curiosamente, não falou com Manuel Sérgio). 

Ao referir as mudanças trazidas pelo 25 de Abril, Ceitil manifesta azedume contra a intelectualidade de esquerda (“entes esclarecidos, quase todos canhotos”, p. 198) que, durante a ditadura, atribuía ao futebol um papel de alienação e incentivo à passividade dos portugueses, mantidos no marasmo pelo Estado Novo. Os intelectuais vanguardistas, para o autor, ainda não recuperaram da “rasteira que a história lhes pregou” com o derrube do regime à margem dos “manuais e cartilhas que indicavam o trilho que o povo, por eles rebocado, devia seguir até á tomada do poder” (p. 199).

Relativamente ao Belenenses, o 25 de Abril tornou intolerável que o Estádio Almirante Américo Thomaz (o nome do Presidente da República fora atribuído ao Estádio do Restelo em 1970, depois do CFB recuperar a gestão do recinto) mantivesse a sua designação, sendo então proposto o nome “Estádio da Liberdade”. No entanto, a Assembleia-Geral do clube reunida em 6 de Dezembro de 1974 aprovou o regresso definitivo a “Estádio do Restelo”, já depois, segundo Ceitil, do dirigente histórico Acácio Rosa receber uma carta de Tomás onde o almirante exilado no Brasil apelava à mudança de nome do estádio, considerando-a benéfica para o clube. Em texto publicado no jornal A Bola, Acácio Rosa realçou o carácter apolítico do “Belém” e a dedicação ao CFB de Américo Tomás, sócio desde 1924, ex-presidente da colectividade (exercera o cargo em 1944) e detentor da Medalha de Ouro Dedicação atribuída pelo clube. Ainda em 1974, a 17 de Julho, todos os dirigentes e jogadores da secção de ténis do Belenenses apresentaram a demissão, numa decisão que “teve a ver com o estigma de “fascista” que as forças políticas dominantes colaram à modalidade” (p. 203), tradicionalmente praticada pelas elites.

sábado, 21 de abril de 2012

Assim, o Fanô não poderá voltar a roubá-las

Diário de Notícias, 18 de Abril de 1943

“Porto, 17 – Realizou-se ontem, no Tribunal Militar Territorial desta cidade, o julgamento do agente da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado Leonel Laranjeira, acusado como autor da morte do Dr. António Carlos Ferreira Soares, caso ocorrido em 4 de Julho de 1942, no concelho de Vila da Feira. No decurso do julgamento ficou exuberantemente demonstrado que a vítima, além de condenado à revelia na pena de quatro anos de prisão, era um perigoso agente comunista internacional e ainda que o agente incriminado, depois de tentar prendê-lo, foi por ele agredido.
Na luta estabelecida entre ambos o agente da autoridade teria sido morto se não se defendesse a tiro. O promotor de justiça pôs em evidência que a acusação carecia de elementos para proceder.
O advogado do réu, sr. dr. Ângelo César, começou por exaltar o significado moral e político do julgamento, sublinhando a circunstância de um caso que legitimamente bem poderia ser arquivado em corpo de delito ter sido entregue á acção da Justiça. Classificou o julgamento como um facto honroso para a história da justiça do Estado Novo.
Relembrou, em evocação justa, o grande número de mártires da política portuguesa vitimados por agentes comunistas. Sobre os factos demonstrou que a acção do agente foi tão legítima como a do bombeiro que, para apagar um incêndio, tem de danificar e cortar a machado o que impedir a sua acção.
O Tribunal por unanimidade considerou legítimo e imposto pelas circunstâncias o procedimento do réu, que, por isso, foi absolvido.” (p. 5)

sábado, 14 de abril de 2012

O desejo concreto de bater e aleijar

Por sua vez, o espaço noticioso Jornal do Norte, exibido hoje no Porto Canal, terminou com uma peça sobre os eventos comemorativos do aniversário do 25 de Abril a realizar em Vila Nova de Gaia. No entanto, o rodapé da reportagem afirmava que o município gaiense iria celebrar “os 38 anos da Implantação da República”. O lapso sobre o significado da Revolução dos Cravos é mais grave por ocorrer no canal do FC Porto, que gosta de salientar o facto de ser o clube português com maior sucesso desportivo em democracia, deixando implícita a protecção da ditadura derrubada em 1974 aos emblemas da capital.

sábado, 7 de abril de 2012

Inteligente e astuto como um verdadeiro jesuíta

Num episódio da série documental Vitórias e Património exibido hoje na Benfica TV, foi abordada a preparação do clube para o ciclo olímpico com desfecho em Londres, onde o SLB espera incluir os seus atletas na comitiva portuguesa. Na abertura do programa, o narrador faz uma introdução ao tema dos Jogos Olímpicos, afirmando, sobre imagens de ruínas e esculturas gregas, que os Jogos terão surgido na Grécia em 776 a.C., no “período do Império”. Mais à frente, a narração constata que, com o declínio do “Império Grego” e “a ascensão do Romano”, os Jogos foram perdendo relevância até desaparecerem. A ideia repetida da existência de um “Império Grego” está errada, uma vez que a Grécia da Antiguidade se dividia em poleis, ou seja, estados independentes que ocupavam áreas correspondentes ao espaço de uma cidade. Só com a conquista da Grécia pelos Macedónios, no século IV a.C., a península helénica conheceu uma unificação política. Da mesma forma, os Jogos Olímpicos continuaram a realizar-se durante o período romano, terminando apenas em 393 d.C., já em fase de cristianização.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Tu és o Sucata, pá

Na introdução à colecção Uma História do Desporto em Portugal (Quidnovi, 2011), publicada no volume I (Corpo, Espaços e Média), os coordenadores José Neves e Nuno Domingos fazem, sobretudo nas notas ao texto, um resumo da bibliografia já publicada sobre o tema. Entre as obras de carácter geral referidas, encontra-se História do Futebol Português (Prime Books, 2010), cuja autoria é atribuída, por duas vezes, a “Ricardo Serrado e Pedro Serpa” (pp. 23-24). Trata-se de um lapso, pois Pedro Serpa (n. 1975) é um desenhador com trabalho na ilustração e BD, tendo sido autor, juntamente com o escritor David Soares, do álbum O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books, 2011). Na bibliografia que encerra o primeiro volume da obra coordenada por Neves e Domingos, os nomes de ambos os autores de História do Futebol Português surgem grafados correctamente.