Encontrar algo útil no meio da tralha é parte essencial do trabalho de um historiador.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Está tudo certo, mas não temos meios



Boletim Oficial de Moçambique, II Série, 20 de Abril de 1951 (suplemento)




“Direcção dos Serviços de Administração Civil
 
Convite


Encarrega-me S. Exa. o Governador-Geral, capitão-de-mar-e-guerra Gabriel Maurício Teixeira, de convidar as entidades e pessoas mencionadas no artigo 176º da Reforma Administrativa Ultramarina, a União Nacional, todas as colectividades e demais população a assistirem à missa solene “in die depositionis” que manda celebrar amanhã, dia 21, pelas 9 horas, na Sé Arquiepiscopal, sufragando a alma do venerando e saudoso Chefe do Estado, Marechal António Óscar de Fragoso Carmona.

Direcção dos Serviços de Administração Civil, em Lourenço Marques, 20 de Abril de 1951.


O Director,

Juvenal de Carvalho”

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O homem é o animal que disputa



Boletim Oficial de Moçambique, II Série, 11 de Dezembro de 1954

“Considerando que das averiguações a que se procedeu ficou provado que Guilherme Rosa da Silva, natural de Lisboa, sem modo de vida definido, é elemento pernicioso junto das populações indígenas;
Considerando que este facto provoca graves inconvenientes de ordem interna;
Ouvida a Secção Permanente do Conselho de Governo;
No uso da competência atribuída pelo artigo 155º da Constituição, o Governador-Geral de Moçambique manda:
É expulso da Província, por cinco anos (…), o cidadão português Guilherme Rosa da Silva, natural de Lisboa.
Cumpra-se.
Residência do Governo-Geral, em Lourenço Marques, aos 6 de Dezembro de 1954. – O Governador-Geral, Gabriel Teixeira.”

domingo, 13 de janeiro de 2013

As forças do mal não desarmam



É já no final do seu livro de memórias, Percurso Solitário (Bertrand, 2006), que o jurista açoriano Augusto de Ataíde (1941-) relata a sua passagem pelo cargo de subsecretário (depois secretário) de Estado da Juventude e Desportos, que ocupou entre 15 de Janeiro de 1970 e 5 de Abril de 1973, quando passou para a Secretaria de Estado da Instrução e Cultura (foi substituído no pelouro da Juventude e Desportos por Orlando Valadão Chagas, efémero presidente do Sporting), que dirigiria até ao 25 de Abril. Escolhido por Marcelo Caetano, Ataíde trabalhou sob a direcção do ministro da Educação Nacional, José Veiga Simão, com quem partilhava o entusiasmo pelo projecto de transformação do país através do alargamento do ensino. Amigo de Amaro da Costa e Freitas do Amaral, Ataíde acreditava numa evolução pacífica do Estado Novo para a democracia, sofrendo a desilusão do fracasso do marcelismo.

No que respeita aos seus contactos com o sector desportivo enquanto governante, Augusto de Ataíde acredita que o desporto português de então não estava tão afectado por violência e corrupção como aconteceria nas décadas posteriores. O autor de Percurso Solitário considera igualmente não fazer sentido falar em três “efes”: “O Futebol idolatrado pelas massas não parece que as tenha especialmente atraído para o salazarismo…” (p. 321) Existiriam assim condições para uma relação fácil do Estado com os agentes desportivos, se o Ministério da Educação Nacional não tivesse a responsabilidade de se pronunciar sobre as mais diversas matérias da vida dos clubes e federações. Envolvidos “numa malha de autorizações, homologações e, em especial, recursos” (p. 321), Veiga Simão e Ataíde são alvo de numerosas pressões dos dirigentes desportivos e das autoridades locais, que assumem os interesses bairristas. Os pedidos de subsídios pelos clubes, numa altura em que estes são financiados sobretudo por mecenas, são também constantes. Perante as múltiplas solicitações, o Ministério assume geralmente uma posição de firmeza, como quando, no final da época de 1971/72, os adeptos da Académica tentam obter de Veiga Simão um alargamento da I Divisão que salve a AAC da descida.

Difundir a prática do desporto, especialmente entre as crianças e jovens sem condições para a ela aceder, é uma preocupação fulcral de Augusto de Ataíde, que, em conjunto com o director-geral dos Desportos, Armando Rocha, promove a construção, através do Fundo de Fomento do Desporto (financiado pelas receitas do Totobola), de infra-estruturas básicas como pavilhões gimnodesportivos. O subsecretário de Estado irá apoiar, através de subsídios e incentivos à colaboração das autarquias da Margem Sul, os Jogos Juvenis do Barreiro, uma iniciativa de desporto popular promovida pela esquerda local. Neste caso, hostilizando inicialmente um evento que lhe é exterior, o Estado solidariza-se com a promoção do fenómeno visando reduzir a influência comunista nos Jogos e integrar no âmbito oficial o fomento do desporto juvenil. Refira-se que neste período, ao observar a inacção e decadência da Mocidade Portuguesa, o MEN cria paralelamente a esta um conjunto de centros, baseados na adesão voluntária dos jovens, dedicados ao aproveitamento dos tempos livres dos alunos (o carácter misto e politicamente neutro desses centros causa a indignação dos mais conservadores, expressa em muitas cartas recebidas por Ataíde). No exercício das suas funções oficiais, Ataíde tem ainda a oportunidade de assistir aos Jogos Olímpicos de 1972 (um dos atletas portugueses é apanhado a roubar numa loja de Munique e enviado de volta ao país) e à Universíada (Jogos Mundiais Universitários) de 1973, realizada em Moscovo. 

De acordo com o relatado nas memórias de Augusto de Ataíde, a política desportiva do MEN sob a chefia de Veiga Simão (desconfortável com a teia burocrática criada pelo controlo cerrado do Estado Novo sobre a orgânica do desporto português) privilegiou a massificação e não o conteúdo ideológico, no que respeita às actividades atléticas fornecidas à juventude dentro e fora das escolas. No entanto, Ataíde queixa-se de que a imprensa desportiva, alinhada com a oposição ao regime, criticou sistematicamente os esforços ministeriais. De certa forma, o caso particular do desporto deixa antever o falhanço dos planos reformistas no quadro da ditadura, quando muitos agentes e teóricos desportivos acreditavam já que só uma ruptura política de carácter revolucionário poderia, entre muitos outros problemas, desbloquear a questão da difusão da prática desportiva por toda a população portuguesa.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Os monstros sagrados são a causa dessa enorme inflação



Diário Popular, 14 de Agosto de 1963

“O sr. Almirante Américo Tomás teve a amabilidade de nos transmitir, por intermédio do secretário Nacional da Informação, o seu agradecimento pelas referências que fizemos ao 5º aniversário da sua investidura solene na chefia do Estado.” (p. 1)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O nível mental e moral dos políticos continua a descer



Expresso, 15 de Junho de 1974

“50 Pides de Moçambique no Brasil, Espanha e Inglaterra

Mais de cinquenta elementos da extinta PIDE/DGS que se escaparam pelas fronteiras dos países vizinhos de Moçambique foram autorizados a embarcar para o Brasil, Espanha e Inglaterra.
A maior parte dos agentes eram funcionários superiores daquela polícia política e tinham possibilidade de emitir passaportes falsos.
Dois elementos da PIDE/DGS que partiram para Londres há dias, de Salisbúria, apresentaram passaportes em nome dos srs. “Visa” e “Vasco da Gama”.” (p. 1)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

As feministas são o contrário dos touros



A propósito das listas de discos e filmes sobre o fim do mundo feitas há poucos dias, cumpre lembrar o cenário apocalíptico traçado em 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte (1978), o célebre álbum de rock progressivo de José Cid. Nas duas primeiras faixas do trabalho, O Último Dia na Terra e O Caos, as letras falam de “guerras nucleares, poluição” como causas de uma situação em que, sem ar nem luz, “o planeta Terra já não pode mais viver”. A inacção das pessoas perante o desastre que se avizinhava (“não se ouviu um grito, não se fez um gesto”) levou à destruição do planeta, do qual poucos conseguem fugir em naves para o espaço. Só 10 mil anos depois a Terra voltará a ser habitável, permitindo “recomeçar outra civilização”.

O fim e recomeço do mundo imaginados por José Cid integram um álbum espantoso que, apesar do escasso êxito comercial em 1978, veio a ser reconhecido pelos apreciadores de rock progressivo a nível internacional. Nos espectáculos, Cid e a sua banda interpretam por vezes Mellotron, o Planeta Fantástico, a quarta faixa de 10.000 Anos… O estatuto de culto obtido pelo disco leva a que os fãs de Cid reclamem frequentemente um regresso do músico ao rock progressivo, em que não se voltou a aventurar depois dos anos 70. Na verdade, o cantor ribatejano já anunciou várias vezes um projecto no género sinfónico intitulado Vozes do Além, no qual, com outros músicos, Cid trataria o tema da vida para além da morte e da reencarnação, a partir de poemas de Natália Correia e Sophia de Mello Breyner Andresen. Um Dia, escrito por esta última, foi musicado, como balada, por Cid no CD Quem Tem Medo de Baladas (2011). No entanto, o anunciado Vozes do Além continua por concretizar, impondo-se para já na agenda de Cid o álbum actualmente em gravação Menino Prodígio. Sem querer criticar os últimos discos gravados por José Cid, quando acontecerá o tão esperado regresso ao rock progressivo?

Entretanto, também em registos mais alternativos, não deve ser esquecido o segundo LP do Quarteto 1111, datado de 1975 e chamado Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas (editado no formato CD em 2008). Essa “Obra-Ensaio de José Cid”, dividida nas partes mencionadas no título, reflecte o ambiente de esperança vivido nos primeiros meses depois do 25 de Abril, além de possuir acentuada qualidade poética e, na opinião do compositor, ser mais original relativamente ao que se fazia lá fora que 10.000 Anos Entre Vénus e Marte. Por sua vez, o EP de José Cid Vida (Sons do Quotidiano), de 1977, permanece inédito em CD.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Bendito sábado chuvoso passado na Biblioteca Nacional



Um pouco de umbiguismo:

O site (ainda em construção) do Centro de História do Futebol e do Desporto, alojado no portal Football Dream, divulga os objectivos da unidade de investigação liderada por Ricardo Serrado, a obra já produzida pelo CHFD e os projectos a desenvolver, como um curso livre em torno da história e filosofia do desporto. Outra actividade em curso é a reunião de um acervo (composto por livros, revistas, folhetos e outros materiais) sobre história do desporto, destinado à consulta dos investigadores que analisem o tema. As caixas de comentários deste blogue estão abertas a contactos de quaisquer pessoas ou entidades interessadas em estabelecer parcerias com o CHFD.

No campo da banda desenhada, o site Central Comics está a assinalar o seu aniversário promovendo o Troféu “Heróis da Década”, que visa premiar as melhores obras da BD publicada em Portugal entre 2001 e 2012. O argumentista Fernando Dordio Campos, da série C.A.O.S., está nomeado na categoria de Melhor Argumentista Nacional, além do primeiro número de C.A.O.S. ser um dos candidatos ao prémio de Melhor Publicação Independente. A concorrência entre os nomes sujeitos à votação, que se prolonga até 31 de Janeiro, é muito forte, mas a selecção feita pela Central Comics constitui o reconhecimento da qualidade do trabalho de um dos maiores autores actuais da BD portuguesa (seria igualmente justa a presença de Osvaldo Medina nos nomeados para Melhor Artista Nacional).