Encontrar algo útil no meio da tralha é parte essencial do trabalho de um historiador.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Eu sou AD, eu trabalho

Além do apelido e da profissão, pouco há de comum entre o inspector Franco, personagem de BD criada por Fernando Dordio Campos (ver séries C.A.O.S. e Super Pig), e o seu “parente” Joel Franco, herói da colecção de romances policiais Não Matarás, escrita por Pedro Garcia Rosado e inaugurada com A Cidade do Medo.


Nas pranchas, Franco (não lhe conhecemos o nome próprio) é um cinquentão já com décadas de experiência na Polícia Judiciária, enquanto nos parágrafos Joel mal ultrapassa os trinta e leva pouco tempo de casa, entre uma passagem pelo combate ao crime económico e o actual trabalho nos Homicídios. Franco tem bigode e uma farta cabeleira grisalha, aos quais Joel responde com cabelo ruivo e óculos exigidos pela miopia. Franco mora no Rossio e Joel em Campo de Ourique. Franco disse adeus ao casamento e à filha por causa do trabalho na PJ. Ainda sem filhos, Joel tem uma relação feliz e estável com uma desenhadora que procura manter à margem das suas investigações. Temos visto Franco sobretudo em acção no terreno, enquanto Joel, sem se intimidar mas também sem ficar ileso nos confrontos, recorre com frequência ao raciocínio e à sua memória fotográfica para compreender as motivações do assassino e descobrir a verdade. Franco é rude e irascível. Diplomático, Joel utiliza sempre uma linguagem cuidada. Nada sabemos sobre as motivações de Franco para combater o crime. Joel busca permanentemente justiça com o objectivo de vingar a morte do seu amigo de infância Augusto e consegue-o ao punir criminosos. O sucesso de Franco é bem mais ambíguo.


O inspector Franco regressará um dia destes no álbum Agentes do C.A.O.S. O inspector Joel Franco deverá surgir novamente em 2011, numa aventura com o título Vermelho da Cor do Sangue.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Onde está a Rick(y)eza de golos?

Escusado será dizer que pouco depois de escrever o post anterior encontrei no romance policial A Cidade do Medo (Asa, 2010), de Pedro Garcia Rosado, uma prostituta assassinada chamada Maria da Conceição Bonifácio. O nome da personagem é uma pura coincidência... ou não? Temos assim um mistério dentro do mistério do livro (que não é muito, já que a sinopse da contracapa conta a história praticamente toda): existe uma ligação entre Pedro Garcia Rosado e a autora de A Segunda Ascensão e Queda de Costa Cabral?

domingo, 29 de agosto de 2010

Mas o melhor de tudo é crer em Cristo

Maria Filomena Mónica, Vasco Pulido Valente e Maria de Fátima Bonifácio, além de amigos e colegas no Instituto de Ciências Sociais, têm várias coisas em comum: a cultura anglófona, a frontalidade, o estudo do período contemporâneo, a profusão de livros, a escrita clara e saborosa, o carácter de referências na imprensa e na historiografia. Talvez por causa disso tudo, partilham ainda uma enorme lata. Não são propriamente simpáticos ao avaliar a inteligência dos outros e integram-se numa elite intelectual restrita. Esse sentimento de superioridade explica que Bonifácio tenha classificado publicamente o quinto volume (“O Liberalismo”), produzido por investigadores de Coimbra, da História de Portugal dirigida por José Mattoso como “lixo”. O assunto já foi abordado por Ricardo Araújo Pereira na crónica de 2005 “Toda a gente é estúpida menos o Vasco Pulido Valente”, que é aplicável aos outros dois membros do trio. De qualquer maneira, não pretendo fazer “justiça” (a prof. Bonifácio deu-me nota de 14 valores, o que para ela era muito), até porque eles são tão queridos assim.

Beija-me na boca e chama-me Tarzan

Por culpa própria, não estou bem informado sobre o conflito israelo-palestiniano, ignorando as condições passadas e presentes que impedem que a solução aparentemente natural e óbvia (dois Estados soberanos com capital em Jerusalém) seja levada à prática ainda esta semana. No entanto, é fácil prever quais serão as opiniões dos comentadores portugueses na imprensa e na Internet quando ocorre um incidente que agrava a tensão no Próximo Oriente. De um lado, a esquerda canta “Palestina, olé, Palestina, olé, Palestina, olé, Palestina, olé, olé”, enquanto a direita faz-se ouvir: “Israel allez, Israel allez, cantaremos só pra ti, Israel allez”. Durante o jogo, as duas claques provocam-se mutuamente com acusações de islamofobia e anti-semitismo e a violência do confronto entre os espectadores aproxima-se daquela que decorre no campo.

sábado, 28 de agosto de 2010

Os meus amigos riem-se de mim

Como se tem visto ultimamente, ninguém bate em ironia os deuses do futebol.

É agola, Cascão

Na colectânea de posts Intriga em Família (Quasi, 2007), Eduardo Pitta faz um resumo eficaz das consequências mais duradouras da Revolução dos Cravos:


“ (…) Foi o 25 de Abril que fez ruir o Estado Novo, abriu Portugal ao mundo, extinguiu a polícia política e a censura, pôs termo à guerra colonial, propiciou a independência das colónias, fixou direitos, liberdades e garantias, transformou servos da gleba em cidadãos, permitiu a legalização de partidos, fundou um Parlamento democrático, rasgou a Constituição de 1933, assegurou eleições livres, alfabetizou, propendeu a equiparar os direitos das mulheres aos dos homens, universalizou o divórcio, disse não à unicidade sindical, acolheu e integrou meio milhão de retornados, e relativizou o papel da Igreja. O principal terá sido isto. Conquistas, de facto. (…)” (p. 158)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

E as estrelas à noitinha nunca dormem ao relento

José Ruy (1930-), natural da Amadora, é um dos nomes maiores da história da banda desenhada em Portugal, com uma obra vasta. As suas adaptações de obras literárias, como Os Lusíadas, Peregrinação e vários autos de Gil Vicente, são importantes numa primeira abordagem aos autores quinhentistas (li a brilhante adaptação para BD da epopeia antes de passar ao texto de Camões propriamente dito). Apoiando-se numa documentação alargada que permite reconstituições históricas cuidadas, Ruy retratou os Descobrimentos na série Bomvento, com oito álbuns (as personagens principais são apresentadas em Homens sem Alma), sem deixar de avançar para o período contemporâneo, onde se debruçou sobre a implantação da República, Alves dos Reis, o 25 de Abril, as vidas de Aristides de Sousa Mendes e Humberto Delgado, etc.


Na minha opinião, fraqueja por vezes quando delineia argumentos originais, criando personagens sem carisma que atravessam décadas de história praticamente inalteradas. Os rostos das figuras humanas desenhadas por Ruy são pouco expressivos e as personagens parecem calmas mesmo quando estão furiosas. Apesar destes problemas e de um traço que talvez pareça ingénuo actualmente, José Ruy é um autor prolífico que como nenhum outro expressou em papel a História portuguesa.