No número de Setembro de 1985 da revista Foot, o “convidado do mês” é o futebolista búlgaro Vanio Kostov, ex-jogador do Sporting agora no Belenenses. Respondendo às perguntas de leitores da publicação, Kostov começa por abordar o problema da violência no futebol: “Julgo que isto é um bocado consequência da liberdade a mais em que as pessoas vivem, pois nos regimes férreos, como no Leste, tal não se passa. Recentemente, houve problemas na final da Taça da Bulgária, que estiveram na origem da dissolução de dois clubes, mas tudo se passou apenas entre os jogadores e o árbitro, pois com os espectadores não havia hipóteses de se passar alguma coisa. Mesmo assim o mal foi cortado logo pela raiz.” Depois de assinalar as virtudes do socialismo científico, o atleta ouve a questão “A SIDA também o preocupa?” (enviada por Anabela Vasconcelos, de S. João do Estoril). Kostov responde: “Não me preocupa pessoalmente, pois não poderei apanhá-la, mas preocupa-me porque é uma doença muito perigosa e que poderá causar sérios problemas à Humanidade. O que me aflige mais e não consigo perceber é o facto de ainda não se vislumbrar qualquer hipótese de cura.” Acreditaria Kostov que, por não ser homossexual, possuía imunidade à nova doença? Curiosamente, a mesma edição da Foot inclui uma fotografia de Kostov e dois outros jogadores belenenses rodeados de belas mulheres. Na entrevista, o futebolista búlgaro afirma não ponderar para já a hipótese de se casar, enquanto aguarda a dissolução do matrimónio através do qual o Sporting lhe assegurou a nacionalidade portuguesa (as limitações à utilização de jogadores estrangeiros só desapareceriam em 1996, depois da “lei Bosman”). Na verdade, foi no ano de 1985 que nasceu a sua filha Sara Kostov, futura actriz/modelo.
Encontrar algo útil no meio da tralha é parte essencial do trabalho de um historiador.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
O desencanto é tão seco como a luz que me rodeia
Diário de Lisboa, 22 de Janeiro de 1977
Mário Castrim: “(…) Primeiro foi aquele programa desportivo (Momento Desportivo), com apresentador excessivamente loquaz e nervoso. Em discussão o futebol. Projectos de alteração às leis, ainda em regime de experiência. Meia hora, ai que bom! Ai que bom, futebol! Pois claro, como dizia o outro: o que nós queremos é bola...
Além do apresentador, vieram os senhores Américo Barradas, que é arbitro; Fernando Vaz, que é treinador; e Toni, que joga.
Como já disse, foi uma grande jogatana! Ah, futebol de um raio que assim é que é falar! Que saudades eu já tinha de ouvir futebol na televisão, discussões, teses, antíteses, profundos blá-blás! Parece que me sinto transportado aos tempos do Lança Moreira!
Parece que há para aí uns problemas, não sei quê independência nacional, não sei quê Reforma Agrária, não sei quê os rendeiros do Norte em luta pela aplicação da Lei do Arrendamento. Mas o que é isto, sim, o que é isto comparado com o futebol?
Não há direito ser só meia hora. Protesto. Os portugueses exigem pelo menos quatro horas de futebol por dia. (…)” (p. 15)
sábado, 27 de novembro de 2010
Fogo sobre o revisionismo
A notícia do fim do programa Contra-Informação não provoca grande choque, até porque a sua exibição na RTP era actualmente quase clandestina. 15 anos são muito tempo e os textos de José de Pina, Rui Cardoso Martins e Filipe Homem Fonseca já tinham perdido a graça e a imaginação, prejudicados pela concorrência na área do humor, como O Inimigo Público. No entanto, é impossível esquecer o impacto histórico e mediático que Contra-Informação possuiu pelo menos nos 10 primeiros anos no ar. A dessacralização dos políticos portugueses atingiu o auge através da sátira corrosiva da bonecada, composta por personagens por vezes bem mais populares e carismáticas que os modelos originais. Nenhum partido escapou às piadas do programa, embora os argumentistas se inclinem para a esquerda, tendo criticado violentamente a guerra no Iraque e a decisão sampaísta de empossar Santana Lopes (é difícil contar a história deste político sem mostrar imagens do boneco Santana Flopes). Os principais dirigentes do futebol português, que chegaram a ter um programa próprio (Bar da Liga), também foram alvos privilegiados, para descontentamento de Pinto da Costa. Prova da dimensão que o fenómeno atingiu foi a variedade de depoimentos de figuras públicas a dizer, sinceramente ou não, como gostavam do programa em que eram caricaturadas. Na hora do fim, resta a memória de “filmes”, “canções” e “anúncios” inesquecíveis e daquela que foi a melhor adaptação para televisão do espírito do cartoon político português.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Je joue aux pirates avec mes camarades
O breve texto na contracapa do catálogo de Natal das livrarias Bertrand, que procura promover os livros como presentes ideais, possui frases curiosas. Dirigindo-se ao leitor/consumidor, a Bertrand pergunta: “Que presentes costuma oferecer? Vinhos, perfume, roupas, brinquedos? Então porque não oferecer um bom livro sobre esse tema.” Será que uma criança de seis anos fica mais contente com um livro sobre a história dos brinquedos que com um brinquedo a sério? No entanto, o fundamental surge depois: “Este catálogo encontra-se dividido por temas para que seja mais fácil descobrir o livro de cozinha para (a) avó, a biografia para o pai ou as últimas novidades de romance para a mãe.” Encontra-se numa única frase uma série de estereótipos ligados ao género.
Que personagens temos aqui? Primeiro, a avó, já meio senil e educada numa época em que as mulheres da classe média pouco mais faziam que cozinhar. É a anciã que prepara refeições especiais para toda a família, sobretudo os mimos de que os netos tanto gostam. Não se lhe conhecem quaisquer interesses lúdicos ou intelectuais (como não se fala do avô, talvez ele já tenha morrido por consumir muito álcool e tabaco, como é próprio dos homens a sério). Depois, o pai, um homem sério e racional, leitor do Público e do Expresso, habituado ao estudo das grandes questões da actualidade. Provavelmente ocupa um cargo de decisão e procura inspiração nas biografias de grandes homens de Estado como César e Churchill. Não tem tempo para ler foleirices como poesia ou literatura. Por fim, a mãe, que, por ser mulher, é sensível e generosa, sobrepondo a emoção à razão. Desinteressada dos clássicos, procura romances acabados de chegar ao mercado, sobretudo de autores americanos best-sellers. Os sentimentos das personagens em busca do amor e da felicidade fazem-na sonhar e compensam a banalidade de uma vida passada a lavar a roupa do pai e a cuidar dos filhos. Estes últimos não parecem ser um mercado explorado pela Bertrand, apesar do catálogo incluir secções de carácter infantil e juvenil.
Um problema de certa publicidade é que aponta para grupos predefinidos de consumidores absolutamente homogéneos, o que no caso dos livros é um grave erro. Qualquer leitor tem direito a ler o que lhe apeteça, por mais inesperado que seja e independentemente da sua idade ou posição social.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
É proibido pintar a letra P na parede
Com alguns anos de atraso em relação aos seus principais rivais, o Sporting incluiu publicidade nas camisolas da sua equipa sénior de futebol em 1988/89, ao obter o patrocínio da empresa de ar condicionado Fnac (também parceira do Benfica). A partir daí, o clube leonino conheceria alguma instabilidade ao nível dos patrocínios, em contraste com a fidelidade do FC Porto aos azulejos Revigrés. Na temporada de 1989/90, os automóveis Nissan foram anunciados nas camisolas do SCP, seguindo-se a seguradora Bonança (1990/91 e 1991/92), a água do Caramulo (1992/93), a cerveja Faxe (1993/94), o queijo Castelões (1994/95), cuja camisola foi envergada pela equipa de Figo na vitória no Jamor, e a televisão SIC (1995/96). Em 1996, a Telecel assegurou a presença do seu logótipo nos equipamentos dos três “grandes”, dando início ao ascendente das empresas de comunicações na publicidade futebolística. Os conteúdos publicitários tornaram-se cada vez mais importantes no futebol português, o que originou as actuais Ligas Zon Sagres e Orangina.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Põe nessa boca uma chupeta
Ontem ouvi uma das minhas cassetes áudio, o que não fazia desde o início da década. Felizmente o pouco usado leitor ainda funciona. A propósito de música que ouvia antigamente, lembrei-me da saudosa emissora local odivelense Rádio Nova Antena (RNA), cujos estúdios se localizaram no Barruncho e depois na Ramada. A frequência outrora pertencente à RNA foi ocupada e colonizada pelo fado.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Vamos nessa, Vanessa
Num texto no Jornal de Notícias, Mário Contumélias critica o programa da RTP Herman 2010, que considera seco e desinteressante. Como é habitual em críticas negativas sobre o trabalho do “verdadeiro artista”, o autor começa por lembrar o passado brilhante e acutilante de Herman José e chega à parte em que, algures após Herman Enciclopédia, o humorista enveredou por maus caminhos e nunca mais foi o mesmo, entorpecido pelas delícias da vida burguesa. Na verdade, acho que Herman 2010 é, em muito tempo, o programa no qual o artista de variedades se sente mais à vontade e um talk-show de bom gosto eficazmente conduzido. Claro que não é perfeito. Em particular, as piadas da introdução raramente resultam, embora Herman dê um ar da sua graça ao cantar, imitar e lançar expressões como “Tá tudo?” e “Tenksl diga”. Quanto aos convidados, é verdade que o programa podia ser gravado em casa de Herman (talvez com mais espaço que o estúdio), o qual convoca para os sofás sobretudo elementos do seu bando (Ana Bola, Maria Rueff, Cândido Mota, Lídia Franco, Joaquim Monchique, José Pedro Gomes, etc.) e amigos ou pessoas que admira, mas, para além de outros talk-shows seguirem uma orientação semelhante, a familiaridade entre anfitrião e entrevistados contribui para que a conversa flua melhor e se relembrem episódios curiosos. As imagens de arquivo são utilizadas na proporção certa, evitando preencher demasiado tempo com nostalgia. O agrado provocado pelos sketches que Herman efectua juntamente com Manuel Marques varia conforme o dia ou o espectador, sem que deixem de incluir um toque pessoal e a habitual capacidade satírica. Por fim, os números musicais revelam bom gosto e a classe da banda de Pedro Duarte. Trata-se, basicamente, da fórmula de Herman SIC depurada em tempo de ecrã e orçamento, além de limada da atracção pelo pimba e pelo sensacionalismo. Ou seja, a prova de que Herman é único e ainda tem muito para dar à televisão, sem perder a espontaneidade.
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