Jornal Português de Economia & Finanças, 1 a 15 de Junho de 1974
“Os fascistas eram realmente pessoas insuportáveis na sua estúpida presunção de terem a verdade na algibeira. É certo que respeitavam as ideias alheias e, de uma maneira geral, quem não era activista podia ser impunemente o que quisesse. Felizmente esses tempos de opressão passaram. Agora – contra, aliás, o programa da Junta de Salvação Nacional a que toda a gente, ou quase, aderiu – quem não é das esquerdas não pode ser funcionário, não pode ser professor, não pode ser empregado e quase não pode ser patrão. É justo, claro. Para lhes ensinar o que é a liberdade. Neste sentido, os alunos da Faculdade de Direito de Coimbra proibiram aos professores e assistentes de ideias contrárias aos partidos das esquerdas, de voltarem a leccionar.” (p. 51)
A Bíblia do FC Porto (Prime Books, 2010) acabou por chegar pela pena de João Pedro Bandeira. Embora mal informado sobre a data da conquista de Ceuta (foi em 1415 e não em 1914), o autor apresenta uma obra bastante actualizada, fazendo referência à vitória sobre o Benfica de 7 de Novembro passado, embora ainda inclua Pôncio Monteiro entre os portistas vivos. Uma das letras de canções sobre o FC Porto reproduzidas no livro (“O Porto Está na Rua”, de 2006) pertence a Carlos Tê, mas falta “Um Pouco Mais de Azul”, tema de Tê gravado em 2003 que constitui o melhor trabalho musical acerca dos “dragões”. Na entrada “Futebol total” (pp. 202-203), é feita a contabilização dos títulos oficiais obtidos no futebol (incluindo todos os escalões, a partir dos infantis) pelos “grandes” portugueses, com o FCP a bater o SLB por 118-112. Se for abordada apenas a categoria dos seniores, as “águias” possuem uma curta vantagem (68-66, com o SCP a ficar-se pelos 44). Os adeptos portistas esperam que a equipa de André Villas-Boas consiga na actual temporada atingir pelo menos o empate, através da conquista da Liga Zon Sagres e da Taça de Portugal.
O grupo de apoio a Cavaco Silva “Nós Acreditamos”, no qual se procurou reunir jovens (menores de 35 anos?) empreendedores e bem sucedidos nas suas áreas, inclui vários atletas, frequentemente detentores de títulos nacionais ou membros de selecções representativas do país. Na lista divulgada, encontram-se os desportistas António Aguilar (rugby), Bruno Barracosa (presidente da Federação Portuguesa de Desporto Universitário), Bruno Pais (triatlo), Diana Ribeiro (patinagem artística), Francisco Lobato (vela), João André (salto à vara), João Benedito (futsal), João Meneses (surf), Luís Ahrens Teixeira (remo), Marina Frutuoso de Melo (obstáculos), Miguel Ximenez (surf), Moreira (futebol), Nelson (futebol), Pedro Martins (badminton), Sérgio Paulinho (ciclismo) e Vasco Uva (rugby).
Os prémios relativos à temporada de 1974/75 atribuídos pelo Clube Nacional de Imprensa Desportiva (CNID) contemplaram Humberto Coelho (Futebolista do Ano), Carlos Lopes (Atleta do Ano) e Fernando Chalana (Revelação do Ano). Enquanto Lopes arrebatava o galardão sucessivamente desde 1972, Chalana, ainda júnior do Benfica mas cujo talento fazia antever uma chegada rápida à equipa principal do clube e à selecção A, conseguiu maior número de votos que Rosa Mota, campeã nacional dos 1500 e 3000 metros.
Hugo Daniel Sousa aborda num artigo do Público a geografia do futebol profissional português, tão litoralizado como o país. Para lá do “esfumar” dos clubes mais pequenos de Lisboa e Porto, que Boavista e Belenenses conhecem actualmente, o poder de atracção exercido por SLB, SCP e FCP nas regiões onde se situam os seus estádios contribui para a dificuldade de desenvolvimento de colectividades com aspirações elevadas nos subúrbios das principais cidades portuguesas. No caso do Odivelas FC, acho que sempre foi relativamente ténue a ligação da cidade ao clube local, prejudicado pelos “grandes” vizinhos e pela falta de espírito bairrista.
De acordo com o depoimento de Fernando Madureira (Macaco) registado por Filipe Bastos no livro Fernando Madureira, O Líder (O Gaiense, 2005), a tarefa do chefe da claque Super Dragões (SD) é comparável à de “uma educadora de infância sempre a ver onde é que as crianças estavam a fazer asneiras” (p. 60). De facto, são inúmeras as situações referidas no livro em que Macaco tem de negociar com a polícia a libertação dos “ultras” detidos ou exigir que os “gaiatos” devolvam objectos roubados. No entanto, surgem como habituais e mesmo inevitáveis as “rapadelas” dos SD em estações de serviço ou free shops de aeroportos. Nem a megastore do Manchester United escapou em 1997 à perícia da claque portista, na qual vários jovens encontram uma alternativa à heroína e ao crime organizado.
Embora as memórias de Madureira incluam os anos dourados de José Mourinho, tal como a derrocada em 2004/05, o que se passa nos relvados acaba por ter escassa relevância, perante a abundância de peripécias ligadas às deslocações dos SD. Entre estas incluem-se as batalhas, no sentido literal, contra os No Name Boys (as relações dos SD com a claque dos Diabos Vermelhos são mais pacíficas, enquanto Macaco dá ordens para que não se verifiquem agressões a “pessoas normais”, ou seja, benfiquistas civis). Nos recontros, além da supremacia pela força, a tomada de presas valiosas (faixas e estandartes da claque rival) assume grande importância.
O livro de Filipe Bastos acaba por demonstrar que o mundo do futebol inclui histórias pessoais que ultrapassam a imaginação dos ficcionistas. Pelo menos, as “aventuras” de Macaco e outras personagens dos SD como Futre, Bruno Pidá, Afurada, Cult, Trilho, Caveira, Teixeira, Pili, Terror, Leitinho e muitos mais registam experiências vividas por poucas pessoas, quanto mais não seja pelo descaramento dos intervenientes.
Para além do ataque de riso (envolvendo vacas e javalis), a presença de José Cid no programa ShowMarkl (canal Q) ficou marcada pela atitude depreciativa do músico em relação à canção Um Grande, Grande Amor, considerada por Cid claramente inferior a outras participações suas no Festival da Canção. Mesmo assim, gosto bastante do tema de 1980, talvez precisamente por ser a misturada de influências de que o autor falou. Quanto aos êxitos de 1983-84 que Cid também “renegou”, Amar como Jesus Amou e Portuguesa Bonita, são de facto momentos infelizes da sua carreira, mas pelo menos tiveram grande retorno a nível financeiro.
Um acontecimento que Cid nunca digeriu bem foi a derrota no Festival da RTP de 1974, onde Paulo de Carvalho obteve com E Depois do Adeus (grande interpretação) o bilhete para a Eurovisão e o prémio extra desse ano, a participação como primeira senha no 25 de Abril. Recorde-se que nessa edição Cid atacou em três frentes, cantando a solo A Rosa que Te Dei e integrando os Green Windows (e não Green Widows, como surge impresso na capa de uma compilação recente) em Imagens e No Dia em que o Rei Fez Anos. Esta última era a principal candidata à vitória, mas ficou-se pelo 2º lugar, para indignação de José Cid, que atribuiu (e atribui) a votação a jogos de bastidores. Para a imprensa da altura, o Festival de 1974 foi fraco, tendo Cid sido zurzido pelo seu fiel “inimigo” Mário Castrim. Em 1978, Cid chegou a interpretar na RTP quatro temas, incluindo O Meu Piano, sem conseguir o primeiro posto. Estava destinado que 1980 seria o ano da cor e do sucesso do cantor ribatejano.
No programa de Nuno Markl, José Cid aproveitou ainda para atacar Tony Carreira, falando de excursões de gente feia e desdentada vinda de Trás-os-Montes para o Pavilhão Atlântico, e revelar que o próximo álbum da “mãe do rock português” se deverá chamar Baladas do Arco-Íris e incluir um regresso a Partindo-se, tema de raiz medieval gravado pelo Quarteto 1111 em 1968.