Encontrar algo útil no meio da tralha é parte essencial do trabalho de um historiador.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Tenho consciência de que nunca possuí uma ideia original

O quiosque de venda de periódicos existente na área comercial do Estádio da Luz, junto à megastore, possui um expositor onde são colocados os jornais diários, permitindo uma rápida visualização das primeiras páginas das publicações. Os jornais desportivos A Bola, Record e O Jogo conhecem um natural destaque, ficando no topo do expositor. Na segunda-feira passada, 8 de Agosto, verificava-se uma situação anómala, uma vez que os três diários referidos encontravam-se colocados na posição contrária à habitual, mostrando a última página, o que não acontecia com os periódicos generalistas. Nestes, algumas referências nas primeiras páginas noticiavam a conquista da Supertaça Cândido de Oliveira pelo FC Porto. Hoje, tudo voltou ao normal, o que permitiu ver Cardozo garantir em A Bola a sua felicidade no Benfica.

Diga-se que não se tratou de uma situação inédita, já que as manchetes dos diários desportivos foram igualmente ocultadas pelo quiosque da Luz um dia depois do FC Porto ter feito a festa no meio da escuridão.

domingo, 7 de agosto de 2011

Então não se está mesmo a ver que Deus existe?


Nos cafés de Cascais, é frequente ouvir comentários acerca das notáveis semelhanças entre duas personagens de origem francófona, o Estrumpfe dos Óculos (da BD de Peyo e produtos derivados) e o Agnan (referido como Aniano ou Aguinaldo nas traduções portuguesas) das histórias do menino Nicolau, criadas por Sempé e Goscinny. Em ambos os casos, tratam-se das únicas figuras do grupo a que pertencem (os Estrumpfes e os colegas de Nicolau, respectivamente) que usam óculos. Além desse factor distintivo, Agnan e o Estrumpfe dos Óculos são “intelectuais” com gosto pelo estudo, bem comportados, servis perante a autoridade (a professora ou o Grande Estrumpfe) e queixinhas, julgando-se superiores aos outros e criticando permanentemente o comportamento dos seus semelhantes. Apesar da constante busca de reconhecimento público das suas qualidades, os dois personagens são detestados por todos (e bem, na perspectiva do leitor) e sofrem agressões físicas. O paralelismo deixa supor uma presença marcante deste tipo intemporal de jovem nas infâncias de Peyo, Sempé e Goscinny, que tão bem o descrevem nas suas criações. Na década de 90, ao ler alguns dos livros nos quais surgem as duas personagens, não podia evitar pensar que a minha imagem não estava muito distante desse modelo…

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Vai com um cartão de visita prás profundezas do inferno

Este blogue foi criado há um ano. Eu estava retirado da blogosfera desde 2008, quando abandonara o Pipoca Rasca (já na altura pressentia que Second Life, de Alexandre Valente, seria um dos piores filmes de sempre), percebendo que não percebia nada de cinema e, esgotado esse assunto, não tinha o que dizer. Curiosamente, foi depois de ir ao cinema ver Contraluz, de Fernando Fragata, que me vieram saudades de escrever, como mero espectador. Também podia dar palpites sobre o que via na televisão, sem pretender ser um “crítico”. Para contornar o problema da escolha dos títulos dos posts, resolvi recordar e utilizar, independentemente do texto, expressões encontradas nas mais diversas fontes que, vendo bem, reflectiam o meu percurso. E o nome Tralha Útil apareceu, a partir do objectivo de encontrar significado em coisas aparentemente inúteis e triviais, como tantas vezes fazem os historiadores.

Sem tema predefinido, passei a escrever ao sabor do destino, a partir da tralha que me surgia à frente. Muito do que foi publicado até agora, como os recortes da imprensa que achei “engraçados” ou apenas curiosos por um motivo ou outro, resultou de actividades profissionais (remuneradas ou não). O gosto pela leitura também originou algumas ideias. O cinema e a música acabaram por ficar geralmente em segundo plano, mas sobre isso fala na Internet gente bem melhor que eu.

Valeu a pena? Não sei, mas pelo menos tenho tentado dizer alguma coisa e exercitar a razão. Quando a razão fica para trás, só resta o caos. E do caos já estou eu farto (não falo de BD, obviamente).

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O problema dele é que é parvo e também é estúpido

Em A Cada Um o Seu Lugar (Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2011), Irene Flunser Pimentel estudou a Obra das Mães pela Educação Nacional (OMEN), uma das organizações que agruparam a elite feminina do Estado Novo. Promotora de actividades filantrópicas, a OMEN revelou-se um fracasso, tendo acção reduzida e falhando o objectivo de mudar as mentalidades das mulheres portuguesas no sentido dos princípios do regime. A forma como a OMEN actuou a nível local pode ser avaliada a partir de fontes como o Relatório Elaborado pela Comissão Municipal da Obra das Mães pela Educação Nacional em Reguengos de Monsaraz, 1943.

No concelho alentejano, a delegação da OMEN foi fundada em Janeiro de 1941, dividindo-se as “senhoras” da terra entre a Comissão Municipal e a comissão paroquial. Num contexto de carência agravado pela guerra em curso, “nada se torna mais imperioso do que socorrer as criancinhas deficientemente alimentadas e vestidas que frequentam as escolas” (p. 6), através da iniciativa “Uma merenda nas escolas”. 60 crianças de Reguengos em idade escolar passaram assim a receber diariamente 2,5 dl de leite (às 8.45 da manhã) e, à tarde, uma fatia de pão com conduto (mel, queijo, marmelada, etc.) resultante de doações particulares. Os alunos beneficiários foram escolhidos pela OMEN tendo em conta a “maior pobreza e aplicação nos estudos” (p. 7), após visitas às suas residências e contactos com os professores (duas docentes, Almerinda Tavares e Julieta de Andrade Rosado, integravam a OMEN). Na escola para rapazes, um refeitório foi inaugurado com a presença das dirigentes distritais da Obra das Mães.

A Semana da Mãe, celebrada em Dezembro (mês da festa de Nossa Senhora da Conceição), era uma das iniciativas mais visíveis da OMEN, que atribuía prémios a famílias numerosas e fornecia berços e enxovais a recém-nascidos. Em Reguengos de Monsaraz, além do prémio anual de mil escudos a uma família numerosa (casal e 10 filhos, no caso dos premiados de 1942), era entregue o diploma de “Mãe Cristã” a uma mulher considerada exemplo de “boa esposa e mãe” (p. 10). A 8 de Dezembro, a festa infantil da OMEN de Reguengos incluía “quadros” (pequenas representações) interpretados por crianças e alunos da Escola Secundária local. De acordo com o relatório, a actividade da Obra das Mães passava também pelo apoio à catequização dos jovens e ao internamento de crianças deficientes ou abandonadas.

O livro publicado pela OMEN inclui também um relatório do médico José Pires Gonçalves, em serviço voluntário na escola primária de Reguengos. Pires Gonçalves procedeu ao exame clínico de uma amostra de 80 indivíduos (parte do total de 636 alunos a estudar na vila), na sua maioria filhos de “gente humilde com uma situação social nítida e dolorosamente abaixo do nível do Pão” (p. 19), detectando numerosas doenças, como sarampo (35 casos), entre as crianças, vítimas da ausência de vacinação e das más condições sanitárias existentes tanto em casa como na escola, onde a transmissão de piolhos era generalizada. Qualquer medida sanitária aplicada a apenas alguns jovens, sem uma melhoria da salubridade do ambiente onde se moviam, seria inútil.

Além da contabilidade dos primeiros três anos da delegação da OMEN em Reguengos de Monsaraz, a obra revela ainda os textos de vários “quadros” apresentados nas festas infantis da organização. Os versos, de discurso cristão e nacionalista, fornecem conselhos relativos aos cuidados com os bebés (“ABC das mães”) e ao comportamento das crianças, as quais deveriam estar atentas e caladas na missa, respeitar “os velhos, os loucos e os aleijados” e, nas ruas, evitar práticas como riscar as paredes ou brincar ao “jogo da pela, terror de tanta janela” (p. 45).

sábado, 30 de julho de 2011

O seu governo foi uma calamidade

O jornalista Rui Miguel Tovar lançou 366 Histórias de Futebol (Livro do Dia, 2011), um livro que associa a cada dia do ano um episódio da história do futebol (sobretudo) português, permitindo uma divertida e instrutiva viagem pelo passado da modalidade e dos seus intervenientes, sem se limitar aos acontecimentos mais óbvios. 

No entanto, Tovar comete um lapso na entrada de 26 de Janeiro (de 1947), data em que se realizou uma partida Portugal-Espanha com a vitória da equipa da casa: “Num Portugal-Espanha, três jogadores do Belenenses, treinado então por Cândido de Oliveira, que é também o seleccionador nacional, ainda mal refeito da deportação no Tarrafal, não fazem a saudação (fascista)” (p. 21). Foi, de facto, num desafio entre o Portugal de Salazar e a Espanha de Franco que ocorreu o caso dos “punhos cerrados”, mas tal ocorreu em 30 de Janeiro de 1938, ainda durante a guerra civil espanhola (ver História do Futebol Português, vol. I, pp. 232-233). Em 1947, Cândido de Oliveira não era o seleccionador nacional, cujas funções eram desempenhadas por Tavares da Silva. De resto, a saudação fascista desapareceu do quotidiano português após a vitória dos Aliados na II Guerra Mundial. Outras falhas do livro são menos relevantes, resultando de erros de revisão (o título da obra presente na lombada é 366 História de Futebol, enquanto no rodapé passa a 365 História de Futebol). Por exemplo, o Real Madrid não chegou à final da Taça dos Campeões Europeus em 1964/65, ao contrário do que se refere na p. 200: foi nessa época que “o Vale dos Caídos mudou-se para Lisboa” (o polémico título do Mundo Desportivo) e o Benfica, depois de eliminar os madrilenos, foi derrotado pelo Inter de Milão em casa deste.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Até fico com os tomates azedos

Seara Nova, nº 1716, Verão de 2011

António Catita: “ (…) Tal como no tempo do Império Romano e dos seus circos, dá-se presentemente aos povos espectáculos embrutecedores e alienantes, como o futebol, passatempos televisivos absolutamente frívolos, distracções nocturnas pela noite dentro (com bebidas e sexo), cinema emotivo e violento, sem conteúdo de qualquer valor, e que, no conjunto, afastam muitos jovens de actividades sãs, positivas, culturais, mais viradas para o enriquecimento da mente e do corpo. (…)” (p. 44)

sábado, 23 de julho de 2011

Café, café, preciso de ti

O livro Regras de Futebol de Cinco (Serviço de Publicações da Mocidade Portuguesa, 1968), da autoria de José Guerreiro Correia, inspector dos Serviços de Educação Física da MP, surge numa altura em que a variante do futebol actualmente conhecida por futsal é ainda uma novidade em Portugal, proliferando os torneios particulares antes da regulamentação e oficialização da modalidade pela FPF. No entanto, as normas definidas por Guerreiro Correia não encaram o futebol de cinco como um desporto em si mesmo, mas apenas como futebol de 11 em terreno reduzido, que exige menos condições e equipamentos. Os recintos de “handebol de 7”, já “em número considerável” (p. 11), seriam utilizados para a iniciação das crianças em idade escolar (as regras destinam-se essencialmente aos escalões de infantis e iniciados) no futebol. As faltas dos jogadores deveriam ser punidas com pontapés livres ou de grande penalidade (neste caso, “Qualquer das equipas pode ser punida com grande penalidade, independentemente do local onde tenha sido cometida a falta, se esta for julgada, pelo árbitro, suficientemente grave para o efeito”, p. 27), na cobrança dos quais o jovem futebolista não poderia tomar um balanço superior a 3 metros.

Na introdução, o autor refere que muitos professores de Educação Física resistem a ensinar aos alunos futebol, devido ao medo das características desse desporto de massas profissionalizado. Contudo, Guerreiro Correia considera que a atracção das crianças pelo “fenómeno social dos nossos dias” que é o futebol pode ser aproveitada para lhes incutir “uma perspectiva de desporto mais válida” (p. 6). Os primeiros pontapés na bola serviriam não para detectar novos talentos mas para difundir entre os alunos um “excelente meio de educação” (p. 7). O futebol de cinco, praticável nas escolas devido às dimensões reduzidas do seu terreno de jogo, constituiria uma fase de transição para o futebol de 11.