Encontrar algo útil no meio da tralha é parte essencial do trabalho de um historiador.

sábado, 24 de agosto de 2013

Greve geral até ao Natal


Depois de concluir, com o estudo da I República, os doze primeiros volumes da sua História de Portugal, Joaquim Veríssimo Serrão foi além do plano original e passou à reconstituição dos acontecimentos do período entre 1926 e 1974, para o qual prefere a designação “II República” à de “Estado Novo”. Acerca desta fase da história portuguesa, o historiador escalabitano publicou até agora seis volumes, abordando o volume XVIII (Verbo, 2010) os anos entre 1960 e 1968, que terminam com a queda de Salazar e a subida à Presidência do Conselho de Marcelo Caetano. De acordo com o anunciado por Veríssimo Serrão, o período de governo do seu amigo Caetano (correspondência trocada entre os dois antes e depois do 25 de Abril encontra-se publicada) ocupará o volume XIX e último da História de Portugal, possivelmente já concluído pelo autor mas ainda inédito.

Se, de acordo com as introduções dos diversos volumes da monumental obra, a origem do impulso que levou Joaquim Veríssimo Serrão a lançar, em 1977 (quando se encontrava fora da docência por ter sido saneado pelo novo regime), o projecto da sua História de Portugal se encontra nas críticas injustas a grandes figuras do passado nacional e ao esforço colonizador dos Portugueses feitas, na sua opinião, durante os anos revolucionários, os trabalhos do investigador sobre o período posterior ao 28 de Maio orientam-se pela preocupação de reabilitar os protagonistas da ditadura. É pena que, na defesa intransigente desta, Veríssimo Serrão proceda a uma leitura acrítica de um âmbito reduzido de fontes (para narrar os eventos políticos de 1960-1968, o autor recorreu sobretudo ao Diário do Governo, aos discursos de Salazar, às memórias de Américo Tomás e aos livros de Franco Nogueira) e, nas obras citadas em rodapé, omita propositadamente quase toda a historiografia sobre o Estado Novo produzida nas últimas décadas (no volume XVIII, uma excepção é a compilação feita por Filipe Ribeiro de Meneses da correspondência produzida pelos diplomatas irlandeses acreditados em Lisboa entre 1941 e 1970, cuja publicação é saudada por Veríssimo Serrão). No entanto, existem vários aspectos úteis no volume XVIII da História de Portugal, como o tom autobiográfico (Veríssimo Serrão recorre frequentemente a contactos e experiências pessoais para ilustrar os factos narrados), o registo de grande parte das nomeações oficiais, que contribui para um melhor conhecimento do pessoal político, militar, colonial e diplomático do regime de Salazar, ou a descrição do “itinerário” de Américo Tomás, interessante para a história das localidades visitadas pelo então Presidente da República.

No que respeita ao futebol, cuja visibilidade pública se tornou (ainda) maior nos anos 60 devido aos êxitos da selecção, do Benfica e do Sporting em competições internacionais, Veríssimo Serrão (que, relativamente aos acontecimentos desportivos, complementa a sua memória com a consulta da revista O Século Ilustrado) parece dar argumentos aos que defendem a existência de uma relação próxima entre a ditadura e o desporto-rei. De acordo com Serrão, a satisfação das multidões que assistiam aos jogos dos seus clubes preferidos tinha “os seus efeitos políticos” (p. 22) e os responsáveis da II República beneficiavam das relações cordiais que estabeleciam com o meio futebolístico, expressas em deslocações aos recintos desportivos aquando de ocasiões especiais, como a inauguração, em 6 de Outubro de 1960, do terceiro anel do Estádio da Luz, onde Américo Tomás recebeu uma ovação, apesar das manifestações que no dia anterior tinham sido promovidas por opositores da ditadura (p. 23). Além disso, o desporto servia como “factor de aglutinação dos Portugueses” da Europa e de África, já que muitos futebolistas naturais de Guiné, Angola e Moçambique actuavam então em clubes da metrópole, cujos adeptos os idolatravam, sem “nenhum preconceito racial” (p. 22). Moçambicanos como Eusébio e Coluna “foram saudados na metrópole como irmãos portugueses” (p. 425) e integraram a selecção nacional que brilhou no Campeonato do Mundo de 1966, obtendo um terceiro lugar que, para Veríssimo Serrão, “constituiu um refrigério para a vida diplomática” de Portugal (p. 223), então atacado nas Nações Unidas devido à prática de colonialismo (desmentida pelo autor de História de Portugal, que reproduz as teses defendidas por Salazar e Franco Nogueira) em África.


Joaquim Veríssimo Serrão designa a conclusão da História de Portugal como “um dos derradeiros vínculos que me prendem ao mundo da vida” (p. 13), incentivando a curiosidade dos leitores sobre como o velho historiador contará o marcelismo. Além dos êxitos governativos que provavelmente atribuirá a Caetano, interessa saber que causas Veríssimo Serrão encontrará para o 25 de Abril, o qual pôs fim à existência de Portugal como “nação euro-ultramarina” e, na óptica do investigador, inviabilizou o projecto a longo prazo para a África portuguesa formulado pela II República.

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