Encontrar algo útil no meio da tralha é parte essencial do trabalho de um historiador.

domingo, 4 de agosto de 2013

Não consigo aceitar a ideia de comer coelho


Na rubrica “As férias da minha vida” da Visão de 19 de Julho de 2007, o deputado do PSD Miguel Relvas assina o seguinte texto:

“Brasil, 2000

As minhas férias maravilha foram passadas no Brasil, há sete anos – faz em Agosto -, com a minha mulher e filha (...). Passámos dois dias em Salvador da Baía, a fazer um roteiro de turismo cultural e depois fomos descansar para um resort na Ilha de Comandatuba (Ilhéus), onde se podia fazer quase tudo. Havia ginásio, actividades na piscina, de hora a hora, sauna, motas de água, até uma pista de aviação havia na ilha. Tinha uma das paisagens mais bonitas que já vi. Deu para “giboiar” (brasileirismo para descansar), olhar para o céu, passar a tarde a dormir nas redes suspensas, ler. Foram umas férias dedicadas a Eça de Queirós. Li a tese de doutoramento da Maria Filomena Mónica sobre Eça e o Dicionário Gastroeconómico (sic) Cultural de Eça de Queirós, do Dário Castro Alves. Não voltei mais à ilha. Sempre ouvi dizer que o segundo prato de sopa nunca sabe tão bem como o primeiro e que nunca se é feliz duas vezes no mesmo lugar.” (p. 38)



Miguel Relvas manifestava já uma forte ligação sentimental ao Brasil, recentemente realçada pelo cargo que assumiu. No entanto, a referência do então deputado às duas obras sobre Eça de Queirós que leu em Ilhéus (os livros de Mónica e Castro Alves integram esta lista bibliográfica sobre Eça) provoca dúvidas. Maria Filomena Mónica doutorou-se em Sociologia pela Universidade de Oxford, através de uma tese com o título português Educação e Sociedade no Portugal de Salazar (Presença, 1978), e a sua biografia de Eça de Queirós foi publicada pela primeira vez em 2001, um ano depois das férias paradisíacas de Relvas na ilha de Comandatuba (em 2000, de resto, foi oficialmente assinalado o centenário da morte de Eça). O título correcto do trabalho (em dois volumes) referido do embaixador Dário Moreira Castro Alves é Era Tormes e Amanhecia. Dicionário Gastronómico Cultural de Eça de Queirós (Livros do Brasil, 1992). A gralha existente no depoimento de Relvas é, curiosamente, idêntica à da ficha do livro na livraria online Wook. Houve, decerto, algum lapso por parte da Visão ou do futuro ministro.

Ou então, Relvas mentiu em 2007 para dar uma imagem de si mesmo diferente da realidade. Mas isso é pouco provável.

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